Boa Tarde! São João do Piauí, 04 de fevereiro de 2012
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Entrementes | Blog

  • (In) culta!

    Um tema palpitante ouriçou os ânimos de uma parcela da sociedade: um livro de português que defende o uso da norma inculta, a depender do ambiente, referendando-a como expressão legítima da linguagem. 

    O livro de autoria da  professora Heloísa Ramos, "Por uma vida melhor", da Coleção Viver, Aprender (Editora Global), traz, em seu conteúdo, expressões como:  Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“.

    A autora do livro saiu em defesa da obra: "importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala".

    As discussões foram acaloradas em torno da celeuma aberta com distribuição dos livros, referendada pelo MEC. O ministério da educação anunciou que não vai tirar de circulação quase quinhentos mil livros distribuídos aos alunos da rede pública, pois concorda com a abordagem. 

    Não estudei lingüística, mas sei que essa ciência está preocupada com o bem-comunicar e não, em princípio, com a norma culta. Comunicando-se bem, chega-se aonde quer se chegar. Ponto. 

    Portanto, os lingüistas não são afeitos a concordâncias, emprego de vírgulas, pontos, flexão plural de determinado código lingüístico normativo. Isso é coisa da gramática culta, adotada em cada lugar. Não deixa de ser uma escolha arbitrária, leia-se, imposta por um grupo ou classe durante um momento histórico. 

    Embora arbitrária – e a maioria dos comportamentos tidos como “normais” também  são produtos de escolhas arbitrárias, não poderia ser diferente -, a escolha por uma norma culta deve ser resguardada e cultivada, afinal serve de instrumento para ascensão social, prestígio no meio e trampolim para vôos mais altos no espaço que escolhemos ou fomos escolhidos para viver. 

    Sei que há os “revolucionários” apontando que essas escolhas foram feitas pelas elites brancas e burguesas em detrimento da classe trabalhadora, que não teve voz nessa “assembléia de exceção” e, portanto, não reconhece opções destituídas de participação do populacho. 

    A carga político-ideológica costuma pulular em situações como essa. Aqui se evoca teorias e teorias para justificar pontos e pontos de vista. É o velho “arranca-rabo” de classes levado a efeito. 

    Na modesta opinião desse escrevedor (a expressão faz parte da norma culta, viu!), a opção de incutir no alunado em formação o tema ora discutido não é de bom presságio. 

    É preferível que se busque, antes de se deparar com as bases da lingüística, transmitir o conhecimento padrão, culto, por assim dizer, para, em outro momento, submeter o aluno a essas variáveis da língua. 

    Com o conhecimento mais sedimentado – que o projetará na vida, afinal quem domina a norma culta, na nossa sociedade, tem mais chances de alcançar uma vida melhor (burguesamente falando) -, o aluno teria condições de assimilar bem a idéia e, partir daí, trabalhar com as variáveis lingüísticas sem transtornos. 

    Na verdade, o “trabalhar” é para ser lido com reservas. Entendo que em lugar nenhum se deve prescindir da norma culta. Não é porque o indivíduo se encontra num ambiente, digamos, pouco informado que ele tem que se “igualar”. Não precisa ser pedante, mas também não se faz necessário utilizar-se do linguajar do ambiente para se comunicar bem. Comunica-se bem falando “direito”, afastando alguns penduricalhos da língua pátria que, na maioria das vezes, são prescindíveis. 

    É bom lembrar que falar errado não exige método. Cada um fala da sua maneira. Falar e escrever correto demanda esforços intelectuais que ajudarão até mesmo em outras áreas do conhecimento.

    Portanto, parece-me fora de hora submeter os alunos no início de sua formação aos erros formais da língua, mostrando que é possível, a depender do local onde se encontrem, manejá-la sem o apuro técnico adrede concebido. 


    Língua portuguesa
    Olavo Bilac
     
    Última flor do Lácio, inculta e bela,
    És, a um tempo, esplendor e sepultura:
    Ouro nativo, que na ganga impura
    A bruta mina entre os cascalhos vela...

    Amo-te assim, desconhecida e obscura.
    Tuba de alto clangor, lira singela,
    Que tens o trom e o silvo da procela,
    E o arrolo da saudade e da ternura!

    Amo o teu viço agreste e o teu aroma
    De virgens selvas e de oceano largo!
    Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

    em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
    E em que Camões chorou, no exílio amargo,
    O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

    Postado em 10/06/11, 09:07 | Seja o primeiro a comentar

  • O Curioso Caso do PSD

    Nasce um novo partido no Brasil, o PSD (Partido Social Democrata). A promessa, segundo os seus adeptos, é de melhores dias para a carcomida política brasileira. Acho difícil!  

    Em tempo que se discute anemicamente reforma política, a criação de uma nova  sigla, composta por dissidentes de vários partidos, só reforça a falta de rumo e a pusilanimidade de lideranças políticas que querem se livrar de alguns vícios que costumam revestir as velhas – cronologicamente falando- agremiações partidárias brasileiras. 

    Nascer flertando com o governo de turno já é um vício e tanto. Fazer oposição dá trabalho. Querem “ajudar” a construir um Brasil melhor nas franjas do poder. Opor-se com responsabilidade aos impulsos dos que detêm o poder é tarefa que exige muito sacrifício. 

    Robusto, com bancada capaz de fazer a diferença nas votações de temas importantes para o país, o PSD já nasce muito parecido com os demais. Com o passar dos anos vai ficar ainda mais semelhante aos seus congêneres. 

    Dizem que não é de direita. Leia-se: não é conservador o bastante para defender a legalidade formal insertas nos códigos legais. Dizem que não é de esquerda. Leia-se: não adere a teses que, por exemplo, querem fazer reparações históricas em nome de uma tal  igualdade material. 

    Bingo! É de centro. Leia-se: topograficamente bem assentado, o partido inclinar-se-á, de acordo com as conveniências, com os governantes de turno. Bem postados, os portentos líderes que o compõe flertarão, sempre, com a camaradagem do poder, com as benesses que costumam viabilizar suas campanhas para o parlamento ou executivo.  

    É tempo de miséria política. E é com esse cenário que se pretende engendrar uma reforma política para, acreditem!, diminuir a distância abissal entre representantes e representados, fechar o ralo por onde escorre dinheiro público, melhorar o processo eleitoral e, por conseqüência, tornar hígido o processo eleitoral. 

    A nova sigla não tem nada a acrescentar ao cenário partidário. Aliás, acrescenta: mais fisiologismo, mais compadrio, mais troca de favores. O máximo que vão conseguir é juntar-se aos outros para, na ribalta, receber os olhares desconfiados da população e as manchetes das páginas das editorias de política e de polícia dos periódicos. 

    Um novo mundo político possível não emergirá com o nascimento desse novo rebento político. Pelo contrário. Como no curioso caso de Benjamim Button – filme protagonizado por Brad Pitt em que o personagem nasce com as agruras, aparência e doenças da velhice –, o PSD nasce velho, senil, esclerosado, sem conseguir ostentar na fronte o verdor da mocidade. 

    Postado em 10/06/11, 09:05 | Seja o primeiro a comentar

  • Um encontro com Genêsis Naum

    A minha passagem por São Raimundo, como sempre, foi rápida. Com a esposa e o pequeno Lucas curtimos alguns dias com os familiares na cidade. Aproveitamos para tomar muita umbuzada, comer muita canjica, feijão verde e milho cozido. 

    Empanturrado, fiz algumas visitas corriqueiras, embora grande parte dos amigos que ainda reside em São Raimundo estivesse viajando. Na quinta-feira à noite, só para não perder o hábito, visitei o bar Bola de Ouro – filial com o mesmo nome do bar que freqüento em Teresina. 

    Acabrunhando, sentei à mesa com minha esposa e, de imediato, recebi a companhia de Genêsis Naum, figura impoluta que já faz parte da paisagem sãoraimundense. O Estudante pernambucano, que antes andava com uma bengala, segundo ele por puro fetiche e não por não poder se locomover sem ela, nos fez companhia noite afora. 

    Com gestos articulados teatralmente, Genêsis relatou sua vida na cidade e a sua predileção por ela em detrimento à sua cidade natal, Petrolina. Confidenciou que abandonou o seu curso de Arqueologia por não condescender com a “tirania” que, segundo ele, impera na Universidade do Vale São Francisco – UNIVASF. 

    Com raciocínio rápido, às vezes atropelado pela vontade de expor suas idéias literárias e poéticas, Naum relatou-nos que São Raimundo vive um momento novo, pois muitos estudantes de fora estão chegando para estudar nos novos institutos educacionais – IFPI (Instituto Federal do Piauí e UNIVASF). 

    Um olhar ao redor do bar revelava, sim, a tendência cosmopolita que começa a se desenhar na cidade. Goianos, mineiros, baianos e paulistas etc. Todas as tribos começam a colorir a paisagem monocromática de São Raimundo. 

    Reunidos, os estudantes ouviam um som alternativo – rock, reggae, MPB - e varavam à noite embalados por cerveja e bate-papo às margens do esgotado Rio Piauí, o nosso famoso riacho. 

    Falamos um pouco de escrita, poesia e livros. Ele lembrou que havia feito um texto para ser lido na missa de sétimo dia do prematuro falecimento da esposa do conhecidíssimo Luis Tanga. 

    No texto, ele disse que colocou uma expressão utilizada por Fernando Pessoa, o grande poeta da língua portuguesa, para caracterizar os traços psicológicos de dona Dete. 

    Lembrei a ele que Reinaldo Azevedo, articulista da revista Veja, no seu livro “Contra o Consenso”, num texto magistral que falava sobre o poeta piauiense Mário Faustino, transcreveu outra máxima da lavra do português genial: “Morrem cedo os que os deuses amam”. 

    E assim, nesse embalo, singramos pela noite, vertendo risadas das tiradas e das conclusões do estudante com inclinações poéticas, observando as caras e bocas que agora fazem parte da paisagem citadina. 

    Na noite de sábado, voltamos ao bar para ouvir a boa música de Paulo Soares e Duduca – cada vez melhores! 

    Domingo, antes de o sol raiar, pegamos estrada numa verdadeira “via-crúcis”, pois todos os acessos a São Raimundo estão destruídos, um verdadeiro solo lunar nos isola do resto do Estado.   

    No trajeto de volta, percebemos que as cidades que compõem o nosso Estado são de uma pobreza africana e que, na verdade, não há do que nos orgulhar dessa nossa terra. Há, sim, desilusão e melancolia. Até a primeira capital, Oeiras, vive depredada, sem atrativo nenhum.   

    A tal “piauiensidade”, convenhamos, não passa de um ufanismo desmedido, um regionalismo que só se sustenta pela nossa incapacidade de reconhecer que o nosso torrão natal é apenas um lugarejo abandonado pelos nossos governantes e castigado, em grande parte, pela natureza, que despeja, aos borbotões, o calor do sol que queima tudo que palpita em nosso solo.   

    Claro que isso não é motivo para abandonarmos o intento de melhorar as coisas por aqui. Seremos, sempre, operários nessa tentativa de construir um melhor lugar para que nossos entes tenham uma vida mais digna. 

    O que não dar para vocalizar é o discurso ufanista que se incomoda com as críticas dos de fora e que repete, com a fronte içada e o peito estufado, os versos do grande poeta patrício Da Costa e Silva: “A minha Terra é um céu, se há um céu sobre a terra”. 

    Não dá. 

    Postado em 10/06/11, 09:03 | Seja o primeiro a comentar

  • Mentes transtornadas


    Cada ação monstruosa perpetrada por um de nossos pares provoca em nós perplexidades das mais diversas. Entranhadas em nós, elas (perplexidades), nos sacodem, na tentativa de encontrar um sentido lógico em ações hediondas divorciadas, aparentemente, da condição humana.

    Essa é só a nossa primeira tentativa desesperada de compreender o incompreensível. Com os sentimentos assentados, porém, podemos entender que a ação do jovem Wellington, matador que tirou 12 vidas na escola do realengo, foi humana, demasiadamente humana, pois cada um de nós carrega, em nosso íntimo, uma fera que, provocada por algum sentimento nebuloso, vem à tona com toda a sua ferocidade. 

    Mas deixemos para os especialistas tratarem, com mais rigor, desse fenômeno psíquico devastador. Só eles podem, de forma técnica, enquadrar, esquadrinhar a mente do jovem perturbado que ceifou a vida de tantas crianças.

    Podemos, no entanto, buscar explicações, sem ser especialista, para entender a postura de nossas autoridades que, novamente, movidas por delinqüência intelectual, ou má-fé, querem tirar proveito do episódio, posando de solucionadores de todas as nossas mazelas. 

    Não é que os “nossos” representantes políticos estão estabelecendo uma relação entre a tragédia da escola de Realengo e a venda legal de armas no Brasil. Acreditem! Com seus raciocínios teratológicos, essa gente parece não ter limite.

    Segunda nossas autoridades, depois dessa tragédia é preciso “revisitar” o estatuto do desarmamento. É preciso rediscutir a idéia. È preciso desarmar os cidadãos. Assim, evitaremos novas tragédias desse porte. Incrível!

    Qual o nexo causal - relação de causa e efeito - entre a ação do homicida e a possibilidade legal de adquirir armas no país? Por acaso, as armas utilizadas foram adquiridas numa loja? Foi por isso que o atirador doidivanas pôde cometer o crime? Se o referendo tivesse proibido a venda de armas, não teria acontecido a tragédia de Realengo? 

    Se o homicida tivesse entrado e matado algumas crianças com um  taco de beisebol ou com uma peixeira, faríamos um plebiscito para saber a opinião da população sobre a venda de tacos de beisebol e de peixeiras? Tenham paciência!

    As armas adquiridas pelo maluco de Realengo foram obtidas de forma ilegal, como o são as que estão agora na mão dos bandidos. A maioria delas entra pelas fronteiras do nosso continental país. É preciso, sim, monitorar as fronteiras, prender os bandidos e apreender armas que estão em suas mãos. 

    Talvez eu entenda, com os ânimos mais pousados, a postura desses senhores. Como não fazem nada de efetivo, querem, pelo menos, empurrar um discurso falacioso goela abaixo para tentar dar uma resposta à sociedade traumatizada. 

    São mentes transtornadas como essas que rebaixam mais ainda o debate sobre as tragédias nossas de cada dia. 


    Postado em 20/04/11, 10:53 | Seja o primeiro a comentar

  • 'Ficha Limpa', democracia e tirania

    Frustração.  Talvez seja esse o sentimento que paira sobre a cabeça de muitos brasileiros que se depararam  com a decisão do Supremo Tribunal Federal  de adiar os efeitos da Lei da Ficha Limpa, não atingindo, desta feita, o direito de elegibilidade de políticos que tinham sido condenados por decisão colegiada antes de promulgada a lei.

    Viver sob a égide de um regime democrático tem seu preço.  Exige, de cada um,  esforços hercúleos, pois o regime das liberdades reclama ritos, procedimentos que, às vezes, parecem contraproducentes.

    Viver na ditadura - parece contraditório! - é mais simples. Foi isso mesmo que você leu, caro leitor. Eu disse mais simples, e, não, melhor.  É mais simples porque prescinde de barreiras legais, abre mão do sagrado contraditório e todos os seus consectários. Sem esses mecanismos e rituais é “fácil” impor a “ordem”.

    O “sim” do governo autoritário é definitivo. Por isso, tudo se torna menos complexo. A impossibilidade de dizer “não” ao indivíduo torna a coisa mais prosaica, hierarquizada: cumpre quem tem juízo.

    Sem diques que barrem os apetites do governo de turno, as decisões arbitrárias fazem guarida no seio da sociedade, relegando o indivíduo à condição de, só e somente só, sujeito sem garantias constitucionais.

    Nas democracias, até mesmo os mais odientos indivíduos têm direitos. O sistema não é feito só para os que, em tese, cumprem seus deveres. A todos é dado o direito de buscar no ordenamento suas prerrogativas.

    No afã de atender a um reclamo popular – A Lei da Ficha Limpa é oriunda da mobilização de brasileiros, pois nasceu de um projeto popular – a Justiça Brasileira chegou a validar a lei no que dizia respeito a aplicação dela(lei) de imediato, sem se preocupar com as  vedações erigidas pela Constituição vigente.

    É preciso entender  que a soberania da vontade popular não pode passar por cima de suas próprias decisões, afinal a Carta de 88, promulgada pela vontade do povo, não é senão a vontade máxima desse mesmo povo.

    É preciso, em última instância, proteger o povo de si mesmo. Por isso, contamos com um órgão responsável pela salvaguarda do texto constitucional. Protegendo o texto, protege-se, via reflexa, a própria coletividade. 

    Se começarmos a violar o sistema com o fito  cassar direitos individuais com o escopo tido como moralizante, teremos uma falência do próprio sistema. 

    Abrir uma fissura capaz de tragar  para o seu interior direitos e garantias conquistados, ao longo de séculos, a “marteladas” democráticas, é um precedente extremamente perigoso. 
    Agindo assim, nada nos garante que a corda colocada, hoje, no pescoço dos “canalhas” de plantão, passando por cima de direitos e garantias individuais, seja colocada no nosso pescoço, tidos como cidadãos impolutos, numa outra situação.

    O teste de nossa inclinação democrática dá-se, exatamente, quando somos colocados frente a frente com o que consideramos repulsivo, abjeto. Concordar com o que nos parece interessante, é fácil e cômodo. 

    Martin Niemöller (1892-1984), teólogo protestante alemão, traduziu bem, num texto, esse sentimento que permite que a escalada autoritária se dê sob os nossos olhares complacentes: 

    “Um dia, vieram e levaram meu vizinho, que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho, que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia, vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram. Já não havia mais ninguém para reclamar.”

    Portanto, caros, a idéia da lei é ótima. Veio para ficar. É preciso, somente, que ela se amolde ao que preceitua o texto legal e constitucional. Atendendo esses requisitos, poderemos comemorar, efusivamente, esse diploma legal moralizador.

    Postado em 11/04/11, 00:15 | (1) Comentário(s)

  • (In)segurança jurídica


    Otto Von Bismark, estadista e unificador da Alemanha, tascou certa vez: "As leis são como as salsichas. É melhor não ver como elas são feitas". 

    Uma frase emblemática, não há dúvida. Está implícita nela uma sugestão de sujeira na confecção das leis. 

    É uma afirmação que nasce do senso comum, lastreada, evidente, num ceticismo que toma conta de nossa sociedade, principalmente da ala dos desamparados – os que vivem à margem. 

    Leis “sujas” – teoricamente impensável – ou limpas são leis. O “pacto social” conformado pelos que resolveram abandonar a barbárie permitiu que abríssemos mão de parcela de nossa liberdade para nos sujeitarmos a comandos legais gerais e abstratos, emanados de representantes eleitos diretamente pelos representados. 

    Pois bem. Essa idéia, que permitiu uma vida civilizada a diversas nações, foi robustecida, com o passar do tempo, por valores e princípios caros, emprestando ao sistema legal um caráter  valorativo que o legitima.  

    Um princípio, que é de vital importância ao sistema, é aquele que preserva a segurança jurídica das decisões judiciais. Manifestações do judiciário levadas a efeito não podem sofrer de veleidades capazes de tisnar o próprio sistema. 

    O princípio da segurança jurídica, desta feita, estrutura uma idéia fundamental: a manutenção das regras do jogo, antes, durante e depois do jogo jogado, com perdão do truísmo.

    Sem essa preocupação, nenhum sistema - seja ele jurídico, seja ele moral - se sustenta. É a regra que constrói em detrimento da que destrói. 

    O judiciário brasileiro tem dado passos, infelizmente, numa direção que vai de encontro a essa máxima fundamental da vida em sociedade.

    A aplicação retroativa da famigerada lei da Ficha Limpa, o caso do afastamento dos “prefeitos-itinerantes” e a possibilidade do suplente do partido, ao invés do da coligação, assumir a vaga no legislativo em razão do afastamento do titular, são exemplos que nada contribuem para a higidez do sistema.  

    A Lei da Ficha Limpa é ótima. Veio para higienizar o meio político. Seus fundamentos devem ser aplicados doravante, e não retroativamente. Queimar na fogueira “velhas bruxas” da política tupiniquim, atentando contra princípios constitucionais, não ajuda a melhorar o ambiente, pois se desvirtua o sistema para atender o sentimento da hora, o alarido das ruas.   

    Entender que o exercício de mais de dois mandatos consecutivos no executivo, seja no mesmo município, seja num circunvizinho, é vedado, atende a lógica mais comezinha. O que não pode é a Justiça autorizar o cidadão consulente a disputar o cargo e depois, porque mudou a composição do Tribunal, apeá-lo do mandato. Uma aberração!

    Na mesma esteira, para o assombro de todos, menos dos que serão beneficiados, o STF tem entendido, em decisão monocrática, que quem assume, no caso de vacância do parlamentar, é o suplente do partido e não da coligação, depois da disputa que previa que o beneficiado seria o da coligação. 

    “Bruxarias jurídicas” produzidas por quem deveria preservar o sistema só levam a uma situação: a fragilidade e a pusilanimidade do arcabouço jurídico que nasceu para trazer paz e segurança aos jurisdicionados.

    Postado em 14/03/11, 21:44 | Seja o primeiro a comentar

  • O prefeito, o colunista e o deputado

    De: José Herculano de Negreiros (prefeito de São Raimundo Nonato)

    Caro Zeferino Júnior, 
    Li seu texto “ A política mitológica de SRN”. Algumas considerações a fazer. 

    Com relação ao caráter mitológico da política de SRN, entendo, realmente, que o inconsciente coletivo opera – seja na política, seja na vida social -  com ícones, que você identificou como mitos. Desde as priscas eras, o indivíduo busca em figuras emblemáticas uma espécie de farol, de guia. Assim, sente-se representado. 

    A política de São Raimundo realmente, nos últimos tempos, enveredou-se por essa senda. 

    Quanto às suas críticas em relação a nossa administração, achei que o texto enveredou por aspectos “poéticos” que, confrontados com a realidade, esmorece, perde força, uma vez que a situação econômica da prefeitura de São Raimundo é de penúria. 

    Com a idéia de esclarecer a população sobre essa situação e, ao mesmo tempo, mostrar o que está sendo feito para minorar esses problemas, além dos projetos que estão prestes a serem executados, peço um espaço em sua coluna – certamente uma das mais lidas desse portal - para postar informações aptas a esclarecer diversos pontos de nossa gestão. 

    Cordialmente, Padre Herculano – Prefeito Municipal  

    Caros, recebi a mensagem acima do prefeito Herculano sobre um texto publicado na minha coluna. O portal já havia publicado as considerações do Deputado Paes Landim, relativas ao mesmo texto. 

    Segundo o prefeito, o meu texto é um pouco fora da realidade no que tange às questões do dia-a-dia da administração. Há aspectos que eu desconheço e, por isso, incapazes de ser mensurados. 

    Talvez. Mas a “análise” foi feita dentro de um contexto maior que nos chega via imprensa e populares. Por isso, não haveria como fugir disso. 

    Estou acompanhando com alegria o fato de o prefeito assumir as rédeas da comunicação no seu governo, postando informações sobre seu mandato, suas realizações e seus problemas. Isso é, por demais, saudável. Deveria ter feito desde o primeiro dia do seu governo. 

    Mas sempre é tempo. A população ganha com isso. Fazendo assim, cria-se um canal ideal entre o povo e poder, apto a dar transparência às ações públicas engendradas pelo seu governo. 

    Todo mundo ganha com essa nova postura: a administração, por poder expor suas vísceras, relatando o que tem feito para melhorar a vida da população; o povo, por ter acesso às ações da prefeitura, podendo, desta feita, acompanhar o emprego de verbas públicas; o portal, por se consolidar como um meio de informação da mais alta relevância, afinal torna-se, definitivamente, um espaço formidável de discussão sobre assuntos-cidadãos. 

    Na mesma esteira, reproduzo abaixo uma mensagem que enviei ao deputado Landim, após as considerações que ele fez sobre o precitado texto, que o tratava como um dos mitos da política de nossa região. 

    "Caro deputado Paes Landim, 

    Queria lhe agradecer pela manifestação elogiosa e explicativa acerca do texto que tratava da mitológica política de São Raimundo. 

    Quanto à imputação de mito, pespegada por mim à sua figura, é só uma visão particularíssima sobre o que se sucede, hoje, na nossa querida cidade. 

    As massas, parafraseando Nelson Rodrigues, costumam “parir” mitos. E sua atuação como jurista, bem como a sua importância no cenário político nacional, acabou por incutir no inconsciente coletivo de nossa cidade a idéia de que, como o Rei de Midas, o senhor pudesse, com um “toque”, abrir veredas jurídicas ou fechá-las, dependendo da situação. 

    Independente dessa questão, o tenho em grande conta por tudo que o senhor fez por São Raimundo.

    Reconheci isso num texto vazado por mim e publicado na minha coluna semanal. Nele, expresso com muita convicção a sua vital importância para a nossa cidade. 

    Vou mais longe, no referido texto: afirmo, sem mitificação, que o senhor - junto com a Niéde – “fundou” São Raimundo como cidade.  

    Sem a sua atuação e a da cientista, seríamos um vilarejozinho perdido nos desvãos desse Sertão-de-meu-Deus: uma vila de trinta mil habitantes coberta de poeira e sequidão. 

    A sua paixão transformadora emprestou à cidade um caráter cosmopolita. A partir daí, o município começou a concentrar a atenção da comunidade científica e de turistas de todo o mundo.  

    Portanto, mais do que um mito, o senhor foi e é uma realidade transformadora que ajudou a cidade a se projetar culturalmente, permitindo, por conseguinte, crescer de forma não imaginada."

    Postado em 07/03/11, 01:42 | Seja o primeiro a comentar

  • O Brasil Cordial de Lula

    Fiz parte dos 3% que reprovaram o governo Lula. Disse não, várias vezes, ao mandatário maior que foi ungido à condição de semideus da política tupiniquim. O torneiro mecânico que encantou 97% dos brasileiros com uma verborragia tosca, bruta e tacanha, não me seduziu. 

    Enquanto a esmagadora maioria deleitava-se com suas bravatas, com sua pregação divorciada da realidade, enxertada de ódio aos opositores, à imprensa, eu me continha, sentia-me esmagado por um discurso que, para mim, tinha traços de empulhação e de impostura. 

    Senti que o “Brasil Cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda emergiu como nunca no período em que o operário governou o Brasil – na obra Raízes do Brasil, Sérgio identifica nosso traço mais característico: a dificuldade de separar o público do privado. 

    Não, não esqueço, nem desprezo, suas conquistas. Foram importantes, fundamentais, até. Aprofundou mudanças iniciadas antes, bem antes. Tomou medidas importantes que beneficiou uma parcela, como diz o Elio Gaspari, articulista da Folha de São Paulo, do “andar de baixo”. 

    Mas isso não é tudo. Governar também é melhorar costumes. É higienizar as práticas políticas. É não condescender com o malfeito, com o criminoso, com o aético.  

    O significado da “cordialidade” de “Raízes de Brasil”, no entanto, não se assemelha ao que foi explicitado por outro “Holanda”, o Aurélio, em seu dicionário. O verbete “cordial” insculpido no dicionário quer dizer afável, franco, doce. Sérgio Buarque, grande pensador, deu outras características ao adjetivo.

    O nosso operário, que nos prometeu extirpar de nossa sociedade os vícios atávicos implementados pelas elites, o máximo que fez foi sugerir que extirpássemos os Democratas, antigo PFL, da vida política do país.

    Agora entendo a dificuldade que o ex-presidente teve de “desencarnar” do Poder. Mando regalias, palmas e ovações fizeram parte da magia que o embriagou: o doce torpor do poder.

    Passaportes especiais expedidos pelo Itamarati, férias – pós-cargo – bancadas pelos cofres públicos, com o dinheiro do seu adorável povo, aluguel de doze mil reais do apartamento de seu filho por empresa que tem vínculos com o governo federal, confecção de leis para ajudar o filho a sair de “monitor” de Jardim Zoológico para a condição de empresário bem-sucedido, são filigranas, coisas laterais que não têm a mínima importância. 

    Para quem “fundou o país”, nada mais justo do que estender para sua família algum fausto de que ele tanto se habituou. 

    Lula se foi. Deixou um país melhor estruturalmente. No entanto, a República brasileira apequenou-se. Ficou, digamos, mais cordial com a família Lula: no sentido equívoco da palavra. 

    Postado em 24/02/11, 10:20 | (2) Comentário(s)

  • Clara e o crime impossível

    Caros, 

    Não sou noveleiro, mas nessa semana eu posto um texto sobre a última novela da Globo. Olha só que interessante e anti-pedagógico. 


    Quem assistiu aos instantes finais de Passione -  última novela das oito da rede Globo - deparou-se com uma cena insólita, que merece ser retomada e esclarecida, uma vez que a rede de tevê brasileira não se preocupou com os detalhes técnicos da ação perpetrada pelos personagens de sua trama.  

    Clara (Mariana Ximenes), de arma em punho, aponta e dispara: três tiros atingem Totó (Tony Ramos). Chegam os policiais e atestam: “está morto. Instantâneo”. 

    A idéia da vilã e do seu “namorado” era criar uma situação de assalto, provocando uma luta corporal. Na tentativa de defender marido, ela teria errado a pontaria e o acertado.

    Não sabia ela, no entanto, da cilada em que foi metida. Na verdade, foi um truque para incriminá-la, uma vez que não havia como levá-la para a cadeia sem uma prova de um crime grave. 

    Mais tarde Totó aparece. As balas eram de Festim e ele está vivíssimo, pronto para colocar Clara na cadeia por tentativa de homicídio, uma vez que a simples falsificação do testamento dele – falsificado por ela – não a levaria a prisão. 

    Toda trama é revelada. O investigador, cheio de si, compungido, revela para a família e para o público em geral o esquema que levaria Clara a prisão. E assim as cenas finais da telenovela das oito foram ao ar. O público assistiu aquilo tudo vibrando com a fantástica idéia. 

    Sabe qual seria a pena da diabólica Clara, no mundo real, por ter, supostamente, matado Popó?: nenhum dia de cadeia. Mais ainda: o inquérito policial seria arquivado. 

    Segundo o ordenamento jurídico pátrio, Clara cometeu um crime impossível, que a nossa legislação não prevê pena nem mesmo para a tentativa. Na verdade, a possibilidade de Clara matar Popó nunca existiu, afinal o meio – as balas de festim – era absolutamente ineficaz. 

    O crime impossível - quase-crime ou tentativa inidônea –, como é chamado, é uma modalidade que, por ineficácia absoluta do meio – balas de festim- ou impropriedade absoluta do objeto – “matar” um cadáver, por exemplo – o pretenso autor do crime não consegue êxito. 

    Isso mesmo. Você, digno leitor, num acesso de fúria, procura seu desafeto para acertar as contas. Ele, um bêbado contumaz, encontra-se deitado na calçada da esquina em lugar ermo. Com arma em punho, uma velha peixeira enferrujada, você desfere trinta e oito golpes acima do peito esquerdo do infeliz, que havia lhe tomado a namorada.

    Você é preso e processado, pois uma senhora gorda e patusca (como gostava de dizer Nelson Rodrigues), passava pelo local no momento do fato. Sem titubear, a senhora o identifica, testemunhando contra você. 

    Ocorre que, no laudo médico, há uma informação fatal: o pobre diabo, na verdade, já estava morto, em decorrência de um ataque cardíaco que havia dilacerado as suas já combalidas coronárias: o coração do bebum já não batia nem apanhava  

    Pois é. Nesse caso, não há dúvidas você é absolvido, afinal por impropriedade absoluta do objeto (o objeto, no caso, o corpo já sem vida) não poderia ter sido “morto” pelos golpes da “lambedeira” enferrujada, desferido pelo traído furioso. 

    Clara jamais poderia ter matado, pois as balas de festim não teriam o condão de provocar nenhuma lesão na vítima. E a intenção homicida, o “animus necandi” (vontade de matar) – não seria suficiente para imputar, no mínimo, a tentativa de homicídio, uma vez que revelaria uma personalidade inclinada para o crime? 

    Pois é. No Brasil, infelizmente, o legislador, por escolha política, preferiu não abarcar a tese que, por exemplo, quem dispara balas de festim, pensado ser verdadeiras, só não conseguiu levar a termo a conduta homicida por situações alheias à sua vontade e, portanto, deveria ser abarcado pela tentativa. 

    O artigo 17 do Código Penal pátrio não deixa dúvidas: “Art. 17. Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime."

    Bom, a ficção, como o próprio termo denota, não tem compromisso com a realidade. Ao revés. Mas, sem muito esforço, bem que a Globo poderia, pelo menos, ater-se às questões jurídicas, afinal algumas boas lições são sempre interessantes e bem-vindas. 

    Postado em 10/02/11, 22:15 | Seja o primeiro a comentar

  • A política mitológica de São Raimundo

    Caros leitores,

    Havia afirmado que voltaria com a coluna em fevereiro. Diante da precipitação dos fatos políticos, resolvo antecipar a minha volta. O texto que inaugura 2011 é longo. É uma visão particular minha sobre a política de SRN. Espero que gostem.


    A política mitológica de São Raimundo

    Na política o imponderável é quase uma regra. As nuvens do céu político – repisando o já batido jargão – movem-se como crianças serelepes, que não conseguem conter-se, nem mesmo diante das broncas de pais diligentes e carrascos.

    Esse último fato político – que aponta, talvez, para o afastamento de Pe. Herculano  e a subida de Beto Macedo (embora, juridicamente, eu não acredite) – é um retrato revelador disso. Uma foto de um cenário, de um momento político turbulento por que passa São Raimundo Nonato. 

    A volta de Herculano ao poder foi um processo árduo, marcado por indecisões, indefinições, dúvidas e um enorme ceticismo. Aos trancos e barrancos, a candidatura prosperou e, ao fim, logrou êxito. 

    Foi um quebra-cabeça montado com ajuda de muitos. Olhando de fora, hoje, distante dos fatos, percebo que se operaram verdadeiras acrobacias que, tentadas novamente, não se conseguiria mais repetir, em decorrência da complexidade dos movimentos. 

    Com a vitória, veio, mais uma vez, a esperança, companheira inseparável de nós, mortais. As dificuldades seriam imensas. Precisaríamos de mais do que boa vontade para enfrentar os problemas de uma gestão que teria que matar um leão por dia.

    Montou-se uma equipe, tentou-se aproximar do governo federal e estadual, a fim de angariar recursos para alocá-los na cidade. O único bom momento do governo foram os três primeiros meses, pois havia a expectativa de uma vultosa transferência de recursos para a cidade, em virtude do grande evento arqueológico. Houve frustração no que tange ao montante, mas uma parte pequena dos recursos foi transferida. 

    Após isso, o que se viu foi um emaranhado de problemas engolindo o gestor e sua equipe. Sem ritmo, sem identidade própria, sem planejamento, a gestão foi sucumbindo dia a dia, mostrando-se ineficiente. 

    Sem assessoria jurídica, bloqueios de contas, problemas com lotação de servidores, ações judiciais aos borbotões, foram minando a capacidade de movimentação do novo governo. 

    Sem assessoria de comunicação, fatos bobos, sem nenhuma repercussão, agigantavam-se, engolindo a imagem já desgastada do gestor. 

    Sem planejamento, a gerência do dia a dia da administração tornou-se um inferno, um deus-nos-acuda, com decisões tomadas de inopino, como, por exemplo, o afastamento de servidores comissionados para gerar caixa. 

    Perguntar-me-iam alguns atentos leitores? “ Está desapontado, frustrado, arrependido”? Eu diria, com um ar de serenidade, que ultimamente tem me acompanhado: “Não”. E explico por que. 

    Desde o início, falava ao Herculano que ele precisava voltar para fechar um ciclo político, aberto em 1996. Naquele momento, houve uma quebra de uma ordem quase divina estabelecida na cidade, um hiato provocador de mudanças políticas profundas no município.

    Embora ele não tivesse conseguido a reeleição, ficou no ar uma sensação de relação mal-resolvida. O mito, que havia nascido com o rompimento da ordem, deixou marcas profundas nas consciências dos sãoraimundenses.   

    A partir daí a política de São Raimundo começou a ganhar traços e relevos lendários, longe do plano terreno. 

    A derrota do primeiro mito – os Ferreira – ajudou a forjar o segundo, o Pe.  Herculano, algoz do primeiro.  

    Começou, assim, a narrativa mítica da política sãoraimundense. Há quatorze anos, tudo começou e, a partir daí, o inconsciente coletivo foi inundado por seres “mitológicos”, dotados de características supra-humanas, diferenciadas dos mortais. 

    O MITO DOS FERREIRA. Imbatíveis, dono de uma sabedoria política acima da média e de uma capacidade de se movimentar formidável, o grupo era o dono da política local. Virou sinônimo de política inteligente, organizada, coesa. Já não tinham mais adversários à altura. Popularíssimos, conheciam e conhecem a alma do povo. Desdentados, despossuídos, rotos, maltrapilhos, velhos e moços, encontravam, ali, a sua fonte primeira de vida, o seu sustentáculo. Parte da “elite social” da cidade encontrou, no grupo, sua fonte de privilégios. Embora descompromissados com a labuta da gestão proba, eficiente e moralista, não se esqueciam de seus “filhos” despossuídos ou de posses. Assim, construíram uma formidável “máquina” de ganhar eleições. 

    O MITO DO HERCULANO. O nome já é sugestivo. Remonta ao mito de Hércules, nome latino atribuído ao herói da mitologia grega que tinha forças descomunais, hercúleas. Via-se, ali, uma ponta de esperança. Herculano conseguiu conclamar a sociedade. Prometeu um novo despertar. Com as boas novas na mão e na garganta, iria conduzir seu povo para terras férteis, novos amanhãs venturosos, romper-se-iam grilhões, correntes que escravizavam o seu povo seriam destruídas pela força da mensagem de um líder que encarnava a bem-aventurança. Os pobres oprimidos e uma parte da “elite social” receberam bem a idéia de um novo caminho a ser percorrido. 

    Portanto, a política mítica de São Raimundo foi inaugurada com um confronto preanunciado por essas duas “entidades”. A partir daí, a cidade passaria a respirar, a vivenciar, dia após dia, esse ambiente incrustado de “lendas” que soterraria, de vez, a política propriamente dita, uma vez que não há nada mais terreno do que a arte de fazer política. 

    O MITO DO LANDIM. Do confronto desses dois mitos, surgiu um terceiro. Uma espécie de mediador, um ser que pairava sobre eles, assistindo ao confronto, colocando-se ora do lado do grupo político ora do lado do líder solitário. Assim, o mito, fruto da quizila dos dois mitos inaugurais, agigantou-se.

    Como Zeus, personagem mitológico, soberano da olímpica São Raimundo, passou a dizer quem “vive” e quem “morre” na vida política local. Com a espada numa mão, símbolo da força, esse novo mito passou a reger a vida política dos outros mitos e, por conseqüência, dos mortais, da plebe. 

    Assim, o povo de São Raimundo Nonato, ficou “espremido” por duas “entidades mitológicas”, que adejavam sobre suas cabeças, e uma terceira, que, ao fim e ao cabo, decidiria o futuro de todos e da cidade. 

    O resto, vocês já sabem, caros (e) leitores. 

    Só me resta partir para a conclusão. Qual é a leitura de todo esse emaranhado de fatos e narrativas míticas? Por que, lá atrás, falei que não estava frustrado, contrariado, arrependido? 

    Porque entendo – pelo menos passei a entender – que, do ponto de vista político, a volta do Herculano, embora com todos esses descompassos e frustrações, fechou um ciclo e abrirá, a partir de agora, espero, um novo tempo para a política local. 

    Vejam bem. Se o grupo dos Ferreira tivesse vencido as eleições, dois mitos continuariam a “assombrar” a cidade, vitaminados pelas circunstâncias. 

    O primeiro – dos Ferreiras - demonstraria que eles, realmente, são imbatíveis. Nem mesmo a junção de todos foi capaz de derrotá-los. O caminho para a permanência por mais longos e longos anos estaria aberta. 

    O segundo – do Padre –  reafirmar-se-ia, diante do apelo sebastianista – “doutrina salvacionista definida pela espera do messias, de uma espécie de pai da pátria que vem redimir o país e o povo de uma situação desfavorável, é uma crença enraizada no imaginário do povo português desde pouco depois do desaparecimento do rei Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir (1578)”

    Ou seja, o êxito de um mito – Ferreira- servia de base para o outro- Herculano. Assim, a espera por um messias que viesse nos salvar voltaria a fazer parte do imaginário, como nunca, e o outro mito continuaria a nos esmagar dia após dia, nos relegando desatinos de toda ordem.  

    Portanto, a vitória (diante das circunstâncias só ele poderia vencer), de Pe. Herculano - e uma gestão pouco eficiente (até agora) operada por ele - foi fundamental para se abrir um novo momento na história política na cidade. 

    Digo mais: um momento que, de certa forma, traz pro plano terreno a questão política do município. 

    Com a “fragilização” dos dois mitos, fica mais fácil pensar em política, em gestão, para começar a traçar novos rumos para uma cidade que precisa urgentemente de gerenciamento e de gestores que tenham os pés no chão. 

    Portanto, caros leitores, como “analista político”, entendo que essa nova dinâmica pode, sim, trazer bons resultados para a cidade, embora em política deva-se desconfiar de tudo, principalmente porque a indigência de nomes que possam eventualmente preencher o vácuo político que surgirá não nos anima muito. 

    É isso. 

    Postado em 26/01/11, 07:23 | (1) Comentário(s)


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