Caros leitores,
Havia afirmado que voltaria com a coluna em fevereiro. Diante da precipitação dos fatos políticos, resolvo antecipar a minha volta. O texto que inaugura 2011 é longo. É uma visão particular minha sobre a política de SRN. Espero que gostem.
A política mitológica de São Raimundo
Na política o imponderável é quase uma regra. As nuvens do céu político – repisando o já batido jargão – movem-se como crianças serelepes, que não conseguem conter-se, nem mesmo diante das broncas de pais diligentes e carrascos.
Esse último fato político – que aponta, talvez, para o afastamento de Pe. Herculano e a subida de Beto Macedo (embora, juridicamente, eu não acredite) – é um retrato revelador disso. Uma foto de um cenário, de um momento político turbulento por que passa São Raimundo Nonato.
A volta de Herculano ao poder foi um processo árduo, marcado por indecisões, indefinições, dúvidas e um enorme ceticismo. Aos trancos e barrancos, a candidatura prosperou e, ao fim, logrou êxito.
Foi um quebra-cabeça montado com ajuda de muitos. Olhando de fora, hoje, distante dos fatos, percebo que se operaram verdadeiras acrobacias que, tentadas novamente, não se conseguiria mais repetir, em decorrência da complexidade dos movimentos.
Com a vitória, veio, mais uma vez, a esperança, companheira inseparável de nós, mortais. As dificuldades seriam imensas. Precisaríamos de mais do que boa vontade para enfrentar os problemas de uma gestão que teria que matar um leão por dia.
Montou-se uma equipe, tentou-se aproximar do governo federal e estadual, a fim de angariar recursos para alocá-los na cidade. O único bom momento do governo foram os três primeiros meses, pois havia a expectativa de uma vultosa transferência de recursos para a cidade, em virtude do grande evento arqueológico. Houve frustração no que tange ao montante, mas uma parte pequena dos recursos foi transferida.
Após isso, o que se viu foi um emaranhado de problemas engolindo o gestor e sua equipe. Sem ritmo, sem identidade própria, sem planejamento, a gestão foi sucumbindo dia a dia, mostrando-se ineficiente.
Sem assessoria jurídica, bloqueios de contas, problemas com lotação de servidores, ações judiciais aos borbotões, foram minando a capacidade de movimentação do novo governo.
Sem assessoria de comunicação, fatos bobos, sem nenhuma repercussão, agigantavam-se, engolindo a imagem já desgastada do gestor.
Sem planejamento, a gerência do dia a dia da administração tornou-se um inferno, um deus-nos-acuda, com decisões tomadas de inopino, como, por exemplo, o afastamento de servidores comissionados para gerar caixa.
Perguntar-me-iam alguns atentos leitores? “ Está desapontado, frustrado, arrependido”? Eu diria, com um ar de serenidade, que ultimamente tem me acompanhado: “Não”. E explico por que.
Desde o início, falava ao Herculano que ele precisava voltar para fechar um ciclo político, aberto em 1996. Naquele momento, houve uma quebra de uma ordem quase divina estabelecida na cidade, um hiato provocador de mudanças políticas profundas no município.
Embora ele não tivesse conseguido a reeleição, ficou no ar uma sensação de relação mal-resolvida. O mito, que havia nascido com o rompimento da ordem, deixou marcas profundas nas consciências dos sãoraimundenses.
A partir daí a política de São Raimundo começou a ganhar traços e relevos lendários, longe do plano terreno.
A derrota do primeiro mito – os Ferreira – ajudou a forjar o segundo, o Pe. Herculano, algoz do primeiro.
Começou, assim, a narrativa mítica da política sãoraimundense. Há quatorze anos, tudo começou e, a partir daí, o inconsciente coletivo foi inundado por seres “mitológicos”, dotados de características supra-humanas, diferenciadas dos mortais.
O MITO DOS FERREIRA. Imbatíveis, dono de uma sabedoria política acima da média e de uma capacidade de se movimentar formidável, o grupo era o dono da política local. Virou sinônimo de política inteligente, organizada, coesa. Já não tinham mais adversários à altura. Popularíssimos, conheciam e conhecem a alma do povo. Desdentados, despossuídos, rotos, maltrapilhos, velhos e moços, encontravam, ali, a sua fonte primeira de vida, o seu sustentáculo. Parte da “elite social” da cidade encontrou, no grupo, sua fonte de privilégios. Embora descompromissados com a labuta da gestão proba, eficiente e moralista, não se esqueciam de seus “filhos” despossuídos ou de posses. Assim, construíram uma formidável “máquina” de ganhar eleições.
O MITO DO HERCULANO. O nome já é sugestivo. Remonta ao mito de Hércules, nome latino atribuído ao herói da mitologia grega que tinha forças descomunais, hercúleas. Via-se, ali, uma ponta de esperança. Herculano conseguiu conclamar a sociedade. Prometeu um novo despertar. Com as boas novas na mão e na garganta, iria conduzir seu povo para terras férteis, novos amanhãs venturosos, romper-se-iam grilhões, correntes que escravizavam o seu povo seriam destruídas pela força da mensagem de um líder que encarnava a bem-aventurança. Os pobres oprimidos e uma parte da “elite social” receberam bem a idéia de um novo caminho a ser percorrido.
Portanto, a política mítica de São Raimundo foi inaugurada com um confronto preanunciado por essas duas “entidades”. A partir daí, a cidade passaria a respirar, a vivenciar, dia após dia, esse ambiente incrustado de “lendas” que soterraria, de vez, a política propriamente dita, uma vez que não há nada mais terreno do que a arte de fazer política.
O MITO DO LANDIM. Do confronto desses dois mitos, surgiu um terceiro. Uma espécie de mediador, um ser que pairava sobre eles, assistindo ao confronto, colocando-se ora do lado do grupo político ora do lado do líder solitário. Assim, o mito, fruto da quizila dos dois mitos inaugurais, agigantou-se.
Como Zeus, personagem mitológico, soberano da olímpica São Raimundo, passou a dizer quem “vive” e quem “morre” na vida política local. Com a espada numa mão, símbolo da força, esse novo mito passou a reger a vida política dos outros mitos e, por conseqüência, dos mortais, da plebe.
Assim, o povo de São Raimundo Nonato, ficou “espremido” por duas “entidades mitológicas”, que adejavam sobre suas cabeças, e uma terceira, que, ao fim e ao cabo, decidiria o futuro de todos e da cidade.
O resto, vocês já sabem, caros (e) leitores.
Só me resta partir para a conclusão. Qual é a leitura de todo esse emaranhado de fatos e narrativas míticas? Por que, lá atrás, falei que não estava frustrado, contrariado, arrependido?
Porque entendo – pelo menos passei a entender – que, do ponto de vista político, a volta do Herculano, embora com todos esses descompassos e frustrações, fechou um ciclo e abrirá, a partir de agora, espero, um novo tempo para a política local.
Vejam bem. Se o grupo dos Ferreira tivesse vencido as eleições, dois mitos continuariam a “assombrar” a cidade, vitaminados pelas circunstâncias.
O primeiro – dos Ferreiras - demonstraria que eles, realmente, são imbatíveis. Nem mesmo a junção de todos foi capaz de derrotá-los. O caminho para a permanência por mais longos e longos anos estaria aberta.
O segundo – do Padre – reafirmar-se-ia, diante do apelo sebastianista – “doutrina salvacionista definida pela espera do messias, de uma espécie de pai da pátria que vem redimir o país e o povo de uma situação desfavorável, é uma crença enraizada no imaginário do povo português desde pouco depois do desaparecimento do rei Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir (1578)”
Ou seja, o êxito de um mito – Ferreira- servia de base para o outro- Herculano. Assim, a espera por um messias que viesse nos salvar voltaria a fazer parte do imaginário, como nunca, e o outro mito continuaria a nos esmagar dia após dia, nos relegando desatinos de toda ordem.
Portanto, a vitória (diante das circunstâncias só ele poderia vencer), de Pe. Herculano - e uma gestão pouco eficiente (até agora) operada por ele - foi fundamental para se abrir um novo momento na história política na cidade.
Digo mais: um momento que, de certa forma, traz pro plano terreno a questão política do município.
Com a “fragilização” dos dois mitos, fica mais fácil pensar em política, em gestão, para começar a traçar novos rumos para uma cidade que precisa urgentemente de gerenciamento e de gestores que tenham os pés no chão.
Portanto, caros leitores, como “analista político”, entendo que essa nova dinâmica pode, sim, trazer bons resultados para a cidade, embora em política deva-se desconfiar de tudo, principalmente porque a indigência de nomes que possam eventualmente preencher o vácuo político que surgirá não nos anima muito.
É isso.