Um tema palpitante ouriçou os ânimos de uma parcela da sociedade: um livro de português que defende o uso da norma inculta, a depender do ambiente, referendando-a como expressão legítima da linguagem.
O livro de autoria da professora Heloísa Ramos, "Por uma vida melhor", da Coleção Viver, Aprender (Editora Global), traz, em seu conteúdo, expressões como: Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado“.
A autora do livro saiu em defesa da obra: "importante que o falante de português domine as duas variantes e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala".
As discussões foram acaloradas em torno da celeuma aberta com distribuição dos livros, referendada pelo MEC. O ministério da educação anunciou que não vai tirar de circulação quase quinhentos mil livros distribuídos aos alunos da rede pública, pois concorda com a abordagem.
Não estudei lingüística, mas sei que essa ciência está preocupada com o bem-comunicar e não, em princípio, com a norma culta. Comunicando-se bem, chega-se aonde quer se chegar. Ponto.
Portanto, os lingüistas não são afeitos a concordâncias, emprego de vírgulas, pontos, flexão plural de determinado código lingüístico normativo. Isso é coisa da gramática culta, adotada em cada lugar. Não deixa de ser uma escolha arbitrária, leia-se, imposta por um grupo ou classe durante um momento histórico.
Embora arbitrária – e a maioria dos comportamentos tidos como “normais” também são produtos de escolhas arbitrárias, não poderia ser diferente -, a escolha por uma norma culta deve ser resguardada e cultivada, afinal serve de instrumento para ascensão social, prestígio no meio e trampolim para vôos mais altos no espaço que escolhemos ou fomos escolhidos para viver.
Sei que há os “revolucionários” apontando que essas escolhas foram feitas pelas elites brancas e burguesas em detrimento da classe trabalhadora, que não teve voz nessa “assembléia de exceção” e, portanto, não reconhece opções destituídas de participação do populacho.
A carga político-ideológica costuma pulular em situações como essa. Aqui se evoca teorias e teorias para justificar pontos e pontos de vista. É o velho “arranca-rabo” de classes levado a efeito.
Na modesta opinião desse escrevedor (a expressão faz parte da norma culta, viu!), a opção de incutir no alunado em formação o tema ora discutido não é de bom presságio.
É preferível que se busque, antes de se deparar com as bases da lingüística, transmitir o conhecimento padrão, culto, por assim dizer, para, em outro momento, submeter o aluno a essas variáveis da língua.
Com o conhecimento mais sedimentado – que o projetará na vida, afinal quem domina a norma culta, na nossa sociedade, tem mais chances de alcançar uma vida melhor (burguesamente falando) -, o aluno teria condições de assimilar bem a idéia e, partir daí, trabalhar com as variáveis lingüísticas sem transtornos.
Na verdade, o “trabalhar” é para ser lido com reservas. Entendo que em lugar nenhum se deve prescindir da norma culta. Não é porque o indivíduo se encontra num ambiente, digamos, pouco informado que ele tem que se “igualar”. Não precisa ser pedante, mas também não se faz necessário utilizar-se do linguajar do ambiente para se comunicar bem. Comunica-se bem falando “direito”, afastando alguns penduricalhos da língua pátria que, na maioria das vezes, são prescindíveis.
É bom lembrar que falar errado não exige método. Cada um fala da sua maneira. Falar e escrever correto demanda esforços intelectuais que ajudarão até mesmo em outras áreas do conhecimento.
Portanto, parece-me fora de hora submeter os alunos no início de sua formação aos erros formais da língua, mostrando que é possível, a depender do local onde se encontrem, manejá-la sem o apuro técnico adrede concebido.
Língua portuguesa
Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!