Minha avó paterna, do alto de suas mais de nove décadas de lucidez, costuma sempre questionar os jovens transeuntes que se põem diante de sua cadeira de balanço na sala de sua casa sobre que profissão adotaram ou pretendem adotar. Pros de casa, tem o hábito de dizer que filho de pobre tem que seguir a carreira de médico ou advogado. Professores, contadores, historiadores, sociólogos, matemáticos, agrônomos, engenheiros, para ela, se resumirão a lutar pela sobrevivência. Digna há, ainda, a carreira de Padre, pela nobreza de espírito revelada naqueles que se dedicam aos desígnios de Deus.
Não obstante a ingenuidade e até o preconceito que se extrai da sentença de minha avó, é importante observar que sua opinião condiz não apenas com a opinião dominante entre seus contemporâneos e conterrâneos, mas também com a concepção emanada dos romances oitocentistas que espelhavam temporal e espacialmente a realidade cotidiana e, por isso, refletiam o pensamento da sociedade brasileira.
Naquela época, os personagens dos romances dividiam-se entre o direito e a medicina, muito embora houvesse mais convenção do que vocação na profissão escolhida. Bentinho, por exemplo, carregava não apenas a dúvida herdada por nós a respeito da fidelidade de Capitu, mas também a dúvida profissional compartilhada por vários outros personagens como Jorge(Iaiá Garcia), Brás Cubas(Memórias Póstumas de Brás Cubas), Seixas (Senhora), Tristão (Memorial de Aires), Álvaro e Leôncio (A Escrava Isaura) – para os quais o direito representava nada mais que um título de nobreza, um álibi profissional, uma “carta de alforria”.
Naquela época, Roque Spencer Maciel de Barros afirmava que ser bacharel em direito era um “ideal de vida” em uma sociedade que formalmente proibia a vadiagem e socialmente condenava, em função da escravidão, qualquer forma de trabalho manual para os membros de sua elite.
Relegada a segundo plano a inclinação pessoal dos acadêmicos de direito, as Faculdades produziam um contingente de advogados, administradores, parlamentarem, oradores, jornalistas e artistas. Mas não jurisconsultos.
Alguns chegavam a abandonar a faculdade antes de concluírem o curso, como Seixas que deixa os estudos jurídicos no terceiro ano sem muito pesar, uma vez que “a carta de bacharel não tinha grande sedução para a sua bela inteligência mais propensa à literatura e ao jornalismo” (Senhora, 51-2). O mesmo acontece com Leôncio e Álvaro, rivais na disputa pela escrava Isaura. Após ter dissipado parte da fortuna paterna em Recife, e depois de ter abandonado o curso de medicina, Leôncio “tomou tédio também pelos estudos jurídicos” (A Escrava Isaura, 14) Álvaro se dedicou ao direito apenas para ter “uma profissão qualquer” (A Escrava Isaura, 62).
Falta de vocação é também o caso do protagonista de Iaiá Garcia. Sem “queda para a profissão de advogado nem para a de juiz”(Iaiá Garcia, 82), Jorge “empregava uma partícula do tempo em advogar o menos que podia – apenas o bastante para ter o nome no portal do escritório e no almanaque Laemmert” (Iaiá Garcia, 85). Brás Cubas, por sua vez, decorou somente “as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a [a Universidade] como tratei o latim: embolsei três versos de Virgílio, dous de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas de conversação. Tratei-as como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação...” (Memórias Póstumas de Brás Cubas, 146).
Semelhante situação viveu Zuza, cujo “pouco amor aos estudos de direito só era percebido pela mãe” (A Normalista, 146). Tristão se recusa a seguir a carreira escolhida pelo pai, que queria vê-lo negociante, para seguir a carreira jurídica, mas apenas pelo título que o curso lhe ofereceria, e ele insiste: “Quero ser doutor! Quero ser doutor!” (Memorial de Aires, 84). Teobaldo enfrentou, também, o dilema entre o direito e a medicina. Mas ao contrário de outros, e já sob a influência do positivismo que valorizava as ciências naturais, Teobaldo opta pela medicina, afinal, “o direito se lhe apresentava à trafega fantasia com o insociável aspecto de um velho carregado de alfarrábios, tresandando a rapé, fanhoso, pedantesco, sem bigode e com óculos na testa”(O Coruja, 84).
O direito e a medicina ainda gozam, nos dias de hoje, de elevado prestígio. Da mesma forma, como antes, as faculdades se amontoam de alunos atraídos por motivos outros que não sejam a vocação profissional. Como conseqüência, o aumento vertiginoso de faculdades particulares para atenderem a uma crescente demanda, como também um quantitativo expressivo de profissionais incompetentes, de médicos de má reputação, de reprovações em massa em testes da OAB; afinal, ao contrário d´antes, e para decepção de minha avó, o diploma e a bata ou a toga não são mais parâmetros para mensurar a competência profissional e intelectual dos egressos das instituições de ensino superior.