Depois de uma série de arrombamentos ocorridos no comércio de São João do Piauí, a Polícia Militar planeja implantar um sistema de monitoramento, por meio de câmeras, nas principais ruas da cidade. A central de monitoração ficaria na própria sede da Companhia da PM.
Assim, o sistema de monitoramento serviria para maximizar as ações preventivas, repreensivas e investigativas da polícia. A medida já foi adotada em várias cidades do Brasil e do mundo.
A iniciativa da polícia militar em São João representaria uma experiência válida não fosse por um detalhe: querem que os comerciantes paguem a conta. A idéia é que feito o orçamento, cada empresário contribua com uma parcela para a compra do sistema. O problema já começaria no valor que cada um iria despender, uma vez que donos de estabelecimentos menores se julgariam injustiçados em pagar o mesmo que os donos de grandes comércios.
Além disso, é preciso lembrar que segurança pública é uma atribuição constitucional do Estado. Independentemente dos recursos ou instrumentos que utilizem, é dever do Estado arcar com os custos indispensáveis ao bom cumprimento de seu mister.
Para isso, pagamos os impostos. Existem 83 tributos, taxas e contribuições no país, que consomem em média 40% da remuneração que obtemos com o nosso esforço. Trabalhamos 148 dias por ano para o Governo. Em troca de que mesmo? Dentre outras coisas igualmente importantes, como saúde e educação, deveria ser para termos segurança.
O economista Antonio Delfim Netto produziu a imagem definitiva para exprimir a tortura a que a população foi condenada, ao chamar o Brasil de "Ingana": uma nação com carga tributária da Inglaterra e serviços públicos dignos de Gana.
Essa precariedade dos serviços prestados pelo Estado fez surgir o anacronismo do emprego da segurança privada, estimulada pela “indústria do medo” que se criou e que culmina no financiamento privado das atividades de segurança pública.
Se já se disse que o enfraquecimento do ensino público favorece as escolas privadas, que o sucateamento dos hospitais públicos beneficia as clínicas e laboratórios particulares, não resta dúvida de que a inércia estatal quanto às políticas de segurança privilegiam as empresas de segurança privada, que já movimentam bilhões em nosso país.
Não bastassem os impostos, será que teremos que pagar mais essa conta?