“Mateus, primeiro os teus”. A citação dessa passagem bíblica foi evocada pelo Senador Mão Santa para justificar o emprego de inúmeros parentes durante seu Governo, quando o STF ainda não havia proibido a prática de nepotismo. A frase confirma o adágio de que até o diabo pode usar a Bíblia em sua defesa, basta que para isso se distorça sua interpretação.
O amadurecimento político e o fortalecimento das instituições democráticas tem caminhado no sentido de abominar a prática de certos políticos que tratam a coisa pública como uma extensão de suas cozinhas.
O historiador Sérgio Buarque de Holanda, em sua clássica obra Raízes do Brasil, já dissertava sobre as origens da dificuldade de separação entre o público e o privado pelos detentores do poder em nossa sociedade, afirmando que “para o funcionário ‘patrimonial’, a própria gestão política apresenta-se como assunto de seu interesse particular; as funções, os empregos e os benefícios que deles se aufere relacionam-se a direitos pessoais do funcionário e não a interesses objetivos, como sucede no verdadeiro Estado burocrático”.
O que temos observado ultimamente no cenário político piauiense é o prevalecimento de interesses particulares em detrimento dos coletivos. A começar pelas “neocandidaturas” familiares e se estendendo ao atual Governador do Estado, candidato à reeleição.
Senão vejamos: até 2005 Wilson Martins era um deputado estadual do PSDB que perfilava as trincheiras da oposição ao Governador Wellington Dias na Assembléia Legislativa. Em 2005, na propaganda do PSDB, Wilson destacava que seu então partido tinha um “discurso antes, e o mesmo discurso depois”.
Vídeo do então Deputado Estadual Wilson Martins, no PSDB
Mas sua investidura no cargo de Secretário Estadual de Desenvolvimento Rural-SDR foi suficiente para a mudança de seu discurso. E de seu partido. Já no PSB em abril de 2006, Wilson se desincompatibiliza do cargo de Secretário pra concorrer à reeleição como Deputado Estadual. Não sem antes deixar em seu lugar - no seu feudo, quer dizer, a SDR -, um cunhado seu.
Eis que chegam as convenções de junho de 2006. Com a derrota do grupo governista na convenção do PMDB, emerge o nome de Wilson para ser candidato a Vice-Governador, na chapa encabeçada por Wellington Dias. Wilson não concorreria mais à reeleição para a Assembléia, e teria pois a oportunidade de prestigiar seus correligionários que o receberam de braços abertos no PSB, fortalecendo seu novo partido que até sua chegada dispunha de apenas dois prefeitos em todo o Estado.
O que fez Wilson? Colocou sua mulher pra ser candidata em seu lugar, uma das mais votadas no pleito daquele ano. Igualmente eleito vice-governador, Wilson iniciou uma cruzada pelo Estado para viabilizar sua candidatura à Governador em 2010, ciente de que assumiria o bastão do comando estadual em abril deste ano.
De Vice de última hora, a Governador candidato à reeleição
Antes disso, porém, nas eleições municipais de 2008, manteve-se fiel à máxima entoada pelo Senador Mão Santa: “Mateus, primeiro os teus”. Em Teresina, apoiou a candidatura de um sobrinho seu, Rodrigo Martins, a vereador. Eleito. Em Santa Cruz, terra de seus familiares, incumbiu uma sobrinha de substituir seu irmão que, depois de dois mandatos, deixaria a Prefeitura. Sua sobrinha perdeu a eleição, mas decisão recente da Justiça Eleitoral cassou o atual prefeito, determinando a sua posse.
Mas o irmão que deixou a Prefeitura de Santa Cruz não ficou menos prestigiado. Tampouco abandonado. Na composição do novo governo estadual, foi nomeado como Secretário de Desenvolvimento Rural – essa mesma, o feudo - para substituir o próprio cunhado.
Wilson, Lílian e Rodrigo Martins: Governador, Deputada e Vereador de Teresina, respectivamente
As manobras políticas do Governador não esbarram em qualquer tipo de ilegalidade. Alguém poderia alegar que todos seus parentes foram submetidos ao sufrágio popular, a despeito de eventuais “ajudas” que teriam recebido. Entretanto, como preconizavam os antigos romanos, non omne quod licet honestum est. Nem tudo que é lícito é honesto.
A maior proeza do atual Governador, no entanto, foi pessoal. Além de viabilizar-se como candidato, com reais possibilidades de vitória, Wilson conseguiu aumentar seu patrimônio pessoal em mais de 600%, ainda que nos últimos quatro anos tenha se dedicado exclusivamente à política. Sua declaração de bens apresentada à Justiça Eleitoral em 2006 somava RR$ 465.282,05. Já em 2010, o patrimônio de Wilson é de R$ 2.881.888,50.
A notícia recente de que o agora Governador teria dado dois contracheques a um parente seu na Secretaria de Governo reforça a suspeita de uso do Estado como capanga de idiossincrasias pessoais.
Como nos advertia Ulysses Guimarães, é indecoroso fazer política uterina, para em seguida profetizar: “o bom político costuma ser mau parente”.