Europeus e sul-americanos têm algo em comum: a paixão pelo futebol. Não é à toa que, pelo menos até agora, todas as Copas do Mundo tenham sido vencidas por seleções da Europa (Itália, Alemanha, Inglaterra, França) ou da América do Sul (Brasil, Argentina, Uruguai). Infelizmente, muitos políticos, tanto na Europa quanto na América do Sul, aproveitaram-se da paixão popular por esse esporte tão cativante para fazer propaganda política.
Na Europa, o futebol foi usado como instrumento de propaganda política tanto em ditaduras de extrema direita (como nos casos da Alemanha nazista de Hitler e a Itália fascista de Mussolini, nas décadas de 1930 e de 1940) quanto em ditaduras de extrema esquerda (como nos casos dos países do leste europeu, durante a Guerra Fria).
Na América do Sul, as vitórias das seleções de futebol do Brasil, em 1970 (quando se tornou o primeiro país tricampeão em Copas do Mundo), e da Argentina, em 1978, foram exploradas pela propaganda dos seus respectivos regimes militares.
A vitória brasileira na Copa do Mundo do México em 1970, por exemplo, em plena vigência do regime autoritário, fortaleceu o imaginário de uma nação moderna e reconhecida como potência mundial. "Ninguém segura esse país" era a palavra de ordem que impulsionava o regime militar, durante a gestão do Presidente Médici. Depois da conquista de 70, éramos considerados imbatíveis pois, "todos juntos" levaríamos o país "pra frente". A conquista do tri ajudou a impulsionar a propaganda oficial, fazendo surgir o slogan “Brasil: Ame-o ou Deixei-o”, e não por coincidência o início nos anos setenta foi um das fases mais violentas da repressão militar.

O capitão da seleção de 1970, Carlos Alberto, e o general Médici seguram a taça Jules Rimet
Em 1978, a seleção de futebol da Argentina venceu a Copa do Mundo em casa. Semelhante ao que ocorreu no governo Médici, quando a seleção brasileira conquistou o tricampeonato, a ditadura argentina aproveitou a conquista do título mundial para fazer propaganda e ganhar popularidade. Apesar de invicto, o time brasileiro perdeu a chance de disputar a final quando foi superado em saldo de gols pelo time da casa depois que a seleção da Argentina goleou a seleção do Peru (6x0).
Cientes de que as vitórias esportivas geram um sentimento generalizado de contentamento na população, governantes ainda hoje se esforçam em associar suas imagens a essas vitórias, buscando capitalizar as bem sucedidas campanhas esportivas.
Em suas estratégias, se a vitória caberia em grande parte à contribuição pessoal deles-políticos, em contrapartida, em caso de derrota, tenta-se despudoramente imputar a culpa do fracasso ao adversário. Foi assim com o Brasil em 78, quando a ditadura insistiu em propalar que os Peruanos haviam se vendido para a Argentina na derrota de 6 x 0. Em 98, chegou-se a criar uma CPI do Futebol no Congresso Nacional, motivada pela derrota na Copa do Mundo da França, numa busca frenética para encontrar um culpado.
Como a aldeia reflete os ecos da Metrópole, tem-se buscado um culpado para a recente derrota da seleção de São João do Piauí na Copa Piauiense de 2009. É preciso que se repita, pois, um jargão largamente utilizado na literatura esportiva de que no futebol a glória da vitória ou a frustração da derrota ocorrem dentro das quatro linhas de um campo.
O futebol tem um grau de autonomia que passa necessariamente pela genialidade individual do jogador, assim como aconteceu com Leônidas, Pelé, Garrincha, e acontece ainda hoje com Kaká, Adriano, Robinho. É essa "incerteza" da ação individual que destrói qualquer possibilidade de determinação e manipulação absoluta por parte de políticos e da estrutura política.
Assim, ao invés de se procurar um culpado, é preciso ter a humildade de se analisar erros e acertos, aprender com os equívocos, deixar a política de lado, e se preparar pra ganhar dentro de campo os jogos das próximas competições que virão. Talento e capacidade os jogadores sanjoaneses, assim como brasileiros, já mostraram que tem de sobra.