O Procurador Regional do Trabalho, Dr. Edno Carvalho Moura, instaurou procedimento administrativo investigatório para apurar eventuais irregularidades no transporte de funcionários feito pela empresa Schahin, em São João do Piauí.
Segundo denúncia feita pelo Coordenador do Pólo da Universidade Aberta do Brasil no município, Profº Gonçalo Carvalho, os funcionários estariam sendo transportados em condições insalubres, em cima de caminhões e dentro do que chamou de “caixão”, feito de compensado e com apenas duas entradas de ar.
Segundo o professor, “infelizmente prevalece em nossa sociedade uma mentalidade escravocrata, mas também pudera, o Brasil conviveu com a escravidão humana por quase 400 anos e os trabalhadores de hoje são, em sua maioria, descendentes dos escravos negros. Está aí a explicação para o fato de muitos de nós brasileiros acharmos normal trabalhadores sendo tratados como animais, carregados dentro de caixões de compensado ou mesmo de zinco, tanto faz, afinal, são trabalhadores e precisam do trabalho para ganhar o seu sustento! Com base nessa mentalidade é mesmo impossível pensarmos que, no Brasil, as empresas devam tratar os trabalhadores com o mínimo de respeito”.

Grupo Shahin
Com matriz na cidade de São Paulo-SP, o grupo Shahin foi fundado em 1966 e atua nas áreas de engenharia, desenvolvimento imobiliário, telecomunicações, petróleo e gás, energia e finanças (banco, corretora e financeira).
Em São João do Piauí, a Shahin Engenharia trabalha na construção e instalação de 222 quilômetros de extensão de cabos e 447 torres, com tensão de 500 kV, no Piauí, dentro do projeto de Interligação Elétrica Norte- Nordeste. A obra está dividida em duas etapas, ambas partindo do município de São João do Piauí, onde está localizado o canteiro central. Serão 130 quilômetros até a cidade de Paulistana, e 92 quilômetros rumo a Ribeirão.
Segundo a empresa, entre as dificuldades da região está a falta de matéria-prima, principalmente brita, e de água, devido aos grandes períodos de estiagem. No mais, trata-se de uma extensão de topografia plana, perto da BR 020 (Brasília – Fortaleza). Ainda segundo a empresa, no momento de pico haverá até 700 funcionários, a maioria recrutada localmente.
Veja abaixo a íntegra do relato do Profº Gonçalo Carvalho:
"O Governo Federal está investindo milhões de reais em novas linhas de transmissão de energia, entre as quais citamos: a LT Colinas (TO) – Ribeiro Gonçalves C2 (PI), com uma extensão aproximada de 357 km e uma tensão de 500 kV e a LT Ribeiro Gonçalves (PI) - São João do Piauí C2 (PI), cuja extensão aproximada é de 363 km e a mesma tensão da anterior. Em ambas, a estimativa de empregos diretos fica em torno de 1.200 trabalhadores para um investimento na ordem de R$ 471,17 milhões. A previsão de entrada em operação comercial dessas linhas de transmissão é de 21 meses e, a partir daí, espera-se uma receita anual de R$ 66,68 milhões. No conjunto, essas obras, segundo o Governo Federal, contribuirão para o aumento da confiabilidade do sistema de transmissão Norte-Nordeste e, em conseqüência, da capacidade de intercâmbio energético para o Nordeste. O trajeto das linhas passa pelos estados de Tocantins, Maranhão e Piauí.
Não restam dúvidas que, uma vez alcançados estes objetivos, os benefícios são inúmeros para a economia desses três estados, contudo, para além da nossa preocupação com a importância inquestionável que têm esses investimentos para o desenvolvimento econômico de nossa região, é nosso dever, como cidadãos, olhar para o processo ao invés de nos atermos tão somente ao ponto de chegada. Falo isso com o sentimento de quem, apesar dos tempos de chumbo, ainda se sensibiliza com as condições de vida e de trabalho dispensadas aos trabalhadores deste país. Tem sido com esta preocupação que venho acompanhando em minha cidade, São João do Piauí, território no qual estão sendo assentadas diversas torres das mencionadas linhas de transmissão e construída uma subestação de energia, como as empresas se relacionam com os trabalhadores e com o meio ambiente de uma maneira em geral.
Em São João do Piauí, por conta dessas obras, diversas empresas têm se instalado e arregimentado muita mão-de-obra. Uma delas conhecemos apenas pelo nome estampado nas vestimentas dos trabalhadores ou nos carros que fazem o transporte desses ao local da faina: Schahin. E é justamente sobre esses carros que aqui são utilizados no transporte dos trabalhadores da Schahin que queremos nos reportar e, como sinalizei anteriormente, faço isso com o sentimento humano de repulsa a toda forma de exploração, maus tratos, enfim, desrespeito ao qual qualquer trabalhador de qualquer parte do mundo possa ser submetido. O que vemos em São João do Piauí: “Caixões feitos de compensado sobre a carroceria de caminhões. Dentro deles, gente de carne e osso e a vontade e a necessidade de ganhar o pão de cada dia. Mal podem respirar, pois o caixão tem apenas duas entradas de ar: uma porta estreita e um orificilzinho de aproximadamente 40x50 cm. Pelo lado de fora do caixão vemos a inscrição: Schahin.”
Essa reflexão há dias vem tomando conta dos meus pensamentos, a ponto de aguçar minha curiosidade em saber mais sobre esta empresa, daí, hoje pela manhã, acessei o site da Schahin Empresas Financeiras e, de cara, me deparei com um texto intitulado "Política Sócio-ambiental", no qual li o conceito, supostamente defendido pela empresa, de "Responsabilidade Sócio-ambiental", que transcrevo abaixo, juntamente com o link de acesso:
"Responsabilidade Sócio-ambiental - Conjunto de práticas, ações e iniciativas capazes de tornar efetivo o princípio da função sócio-ambiental, seja no âmbito governamental, empresarial ou de entidades não governamentais, mediante a adoção, implementação e gestão de atividades sociais e ambientais em benefício da comunidade, proporcionando a melhoria da qualidade de vida das pessoas e o desenvolvimento do ser humano, por meio de ações preventivas, educativas, culturais, artísticas, esportivas e assistenciais, a defesa dos direitos humanos, do trabalho, do meio ambiente e da justiça social e o apoio ao combate à corrupção e ao suborno, dentre outras." Link: http://www.schahin.com.br/banco/downloads/Politica_Socio_ambiental_v2%20Site.pdf?cod_secao=87&secao=Responsabilidade+S%F3cio-ambiental
Parece que a realidade fática contradiz o conceito de responsabilidade sócio-ambiental apregoado por muitas empresas. Gostaria de saber se aqueles "caixões", nos quais a empresa Schahin transporta os trabalhadores para os locais de trabalho, fazem parte de sua política de "Responsabilidade sócio-ambiental"? Por outro lado, as opiniões sobre tal prática são muito variadas e conflitantes. Há inclusive pessoas que defendem abertamente que “são os trabalhadores os únicos responsáveis por sua própria condição, afinal, eles não estudaram porque não quiseram!”, ou ainda: “eles deveriam é agradecer o fato dessas empresas virem a nossa cidade oferecer-lhes emprego, não fosse isso, eles estariam morrendo de fome!”.
Se o censo comum assim conclui é porque lhes falta o conhecimento histórico e sociológico acerca da formação da sociedade brasileira, porém, nós, enquanto educadores, temos que nos esforçar para melhor compreender o fato e, assim, podermos esclarecer as pessoas de nossa cidade como, apesar das evidências em contrário, aceitamos como natural a violação de direitos dos trabalhadores. “Infelizmente prevalece em nossa sociedade uma mentalidade escravocrata, mas também pudera, o Brasil conviveu com a escravidão humana por quase 400 anos e os trabalhadores de hoje são, em sua maioria, descendentes dos escravos negros. Está aí a explicação para o fato de muitos de nós brasileiros acharmos normal trabalhadores sendo tratados como animais, carregados dentro de caixões de compensado ou mesmo de zinco, tanto faz, afinal, são trabalhadores e precisam do trabalho para ganhar o seu sustento! Com base nessa mentalidade é mesmo impossível pensarmos que, no Brasil, as empresas devam tratar os trabalhadores com o mínimo de respeito!.
Profº Gonçalo Carvalho Filho"