São João do Piauí, 21 de janeiro de 2017
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Notícias | Blog

A praça era deles

Até o final da década de 1990, a Praça João Luiz Ferreira era uma pequena feira livre onde se vendia um pouco de tudo, principalmente frutas. Na pequena praça, atuavam alguns personagens muito curiosos. Havia um vendedor de galinhas extremamente estiloso: calças pretas, camisa branca, chapéu de caubói, cinto com fivela reluzente e óculos espelhados. Sem nenhum pejo, dizia-se "empresário avícola" e se comportava como tal. O pau das galinhas era carregado por um pobre diabo, negro, sandália de couro, chapéu de palha roto, olhar distante. O "empresário" oferecia a mercadoria, mas não tocava nas aves. O carregador cuidava disso. Para ficar bem claro que os dois não pertenciam ao mesma estrato social, o carregador das galinhas mantinha respeitosa distância do patrão. Não sei se o tal "empresário" tornou-se granjeiro ou se foi rebaixado à condição de carregador de pau de galinha. A vida é uma gangorra. Desapareceu das ruas.

Havia um engraxate quase albino, muito magro, corcunda, que não tirava um cigarro da boca. Tossia muito, falava pouco. Ao meio-dia, guardava os apetrechos de trabalho, contava os caraminguás e rumava para uma bodega na rua Benjamin Constant de onde só saía arrastado. Morreu tísico. A cadeira permaneceu vazia na praça por algum tempo.

Entre os vendedores de frutas, destacava-se um velho atarracado, barba sempre por fazer, pança estufada, voz pastosa, mas extremamente cordial. Trabalhava na companhia de dois filhos e primava pela qualidade do que vendia: só ele tinha bananas-maçã  "tiradas de vez".

Entre os personagens da praça, um me fascinava. Era um homem cinzento: vestia um paletó de linho bastante surrado, mas limpo. Tinha alguma semelhança com o Ronaldo Golias. Não fosse um cisto enorme no nariz, seria um desses personagens que, de tão comuns, tornam-se invisíveis. Circulava pela praça com passos medidos, cabeça baixa, calado. Em mais de uma oportunidade, parei na praça para vê-lo. Andava em círculo, ia de um extremo a outro da praça sem falar com ninguém. Numa manhã qualquer, encontrei-o em frente à banca do vendedor de frutas, com os olhos fixos numa bela penca de bananas. Freguês do velho, parei, escolhi as bananas  mais vistosas e preparei-me para pagar. O homem cinza continuava na mesma posição: mão direita no bolso do paletó e os olhos grudados nas frutas. Pensei em comprar algumas para oferecer-lhe. Com receio de ofendê-lo, usei um estratagema: olhei para o velho vendedor e falei: meu irmão, estas bananas estão tentadoras. Escolha aí umas duas bem maduras para eu comer aqui mesmo com meu companheiro, e apontei para o homem cinzento. Como que movido por um sentimento de repulsa, o homem foi-se afastando de mim, recuando e repetindo para ninguém: "Isso não! Isso não! Isso não!". Sem saber o que dizer e um tantinho  constrangido, desisti de comer a banana. O vendedor esboçou um sorriso falou baixinho: "Tem minhoca no juízo".  Um dia, desapareceu sem deixar rastros, mas o cinza que emanava dele ainda persiste na Praça.

Em 01/06/15, 10:44

Por que estou onde estou

No final da década de 1970, trouxe a Teresina Ignácio de Loyola Brandão para uma conversa com estudantes de nível médio. Loyola,  na mira da ditadura,  tivera o seu romance Zero proibido em todo o território nacional.Motivo da proibição: "grave atentado ao pudor". Na verdade, os censores não entenderam nada do livro, mas precisavam mostrar serviço. O romancista ficou impressionado com a receptividade dos jovens teresinenses: auditório lotado e perguntas pertinentes.

Na hora do jantar, Loyola me disse: "Cineas, eu também nasci numa província, Araraquara. Durante muito tempo, fiz coisas por lá, até perceber que a província não tem salvação. Larguei tudo e fui para São Paulo, Rio de Janeiro e, depois, Estados Unidos, onde vivi alguns anos. Voltei ao Brasil e, hoje, trabalho na Editora Três onde edito a coleção Clássicos da Literatura Brasileira". Fez  uma pausa, elogiou a comida e me fez a seguinte proposta: "Vou te levar para São Paulo. Você vai me ajudar a organizar a coleção e outras publicações. Fiquei impressionado com o seu trabalho: você  pode ir muito longe". Sem pensar duas vezes, afirmei: meu irmão, agradeço-lhe o carinho e o convite. Mas veja bem: se você abrir a janela do seu escritório, em São Paulo, seguramente vai perceber passando na rua uns dez "paraíbas"  mais competentes e, com certeza,mais necessitados do que eu. Aproveite um deles que já está por lá. O meu lugar é na minha aldeia onde acredito que possa ser mais útil do que em São Paulo. Loyola não insistiu. Anos depois, convidado do SALIPI, ao me cumprimentar, fez o seguinte comentário: "Você estava certo ao recusar o meu convite. Sem você, talvez esta beleza de salão não existisse".

No início da final da década de 1990,  José de Nicola Neto, parceiro e amigo, em palestra realizada na Oficina da Palavra, afirmou: "Não sei que grude prende o coroné Cineas ao Piauí, mais especificamente a Teresina. Ele seria um grande produtor cultural em qualquer lugar do Brasil e com muito mais chances de sucesso".  Na minha fala, afirmei: meu irmão, nunca incorporei a palavra sucesso ao meu raso universo vocabular. O grude que me prende à minha aldeia são as referências afetivas e o compromisso de contribuir, ainda que minimamente, para tornar a Chapada um pouco melhor ou, pelo menos, um pouco menos  ruim.  Estou inteiro  na minha aldeia.

Na semana passada, José de Nicola esteve em Teresina e voltou a falar do grude que me prende à cidade. Mais uma vez repeti: meu irmão nascer em determinado lugar é contingência e não escolha. Não pedi para nascer no Piauí, não carrego a legenda  no peito: "Orgulho de ser piauiense”. Se eu tivesse nascido em Angirobal dos Crentes, estaria por lá fazendo a minha parte. Só saí do Caracol porque dona Purcina, que me queria "dotô", catapultou-me rumo ao desconhecido. Caí em Teresina e, 50 anos depois, continuo acreditando - posso estar enganado - que tenho contribuído para tornar o ar de minha aldeia suportável. Assim, vou ficando, ficando , até  que a "iniludível" me arraste para o nada...

Em 01/06/15, 10:40

O SALIPI na corda bamba

      Na semana passada, uma ilustre jornalista, depois de elogiar o Salão do Livro do Piauí, perguntou-me qual era a "receita de sucesso do SALIPI". Respondi de bate-pronto: o "sucesso" do SALIPI lembra um pouco o conteúdo do soneto "Mal Secreto".  O brilho que o público vê não traduz a realidade vivida pelo Salão, sempre às voltas com problemas financeiros, desde a primeira edição.

Entendam as dimensões do problema: criado em 2003, o Salão do livro do Piauí poderia ter morrido no nascedouro, sem choro e nem vela. Sem nenhuma instituição que o agasalhasse, sem recursos financeiros que lhe dessem suporte, contando apenas com a vontade e o entusiasmo de 4 professores pobres, a empreitada tinha tudo para não vingar. Para surpresa de todos, o público compareceu maciçamente ao Salão e demonstrou o quanto necessitava de um evento como aquele. O Estado e a Prefeitura de Teresina marcaram presença, garantindo o mínimo para que o SALIPI se realizasse. Terminada a festa, sobraram dívidas que nos tiraram o sono por alguns meses.

Para tentar viabilizar o SALIPI, criou-se a Fundação Quixote ( 2004), instituição sem fins lucrativos que, em tese, teria mais facilidade para  celebrar  convênios com entes públicos e empresas privadas. Outro tiro no pé: as empresas privadas não apostam um centavo em livro, produto estranho ao cardápio da maioria dos brasileiros. Sem ter a quem recorrer, a Fundação Quixote foi bater à porta do Governo do Estado e da Prefeitura de Teresina. Os recursos disponibilizados sempre foram insuficientes, mas garantiam o mínimo para que a festa do livro permanecesse viva.

Por cinco anos, estive à frente da Fundação Quixote e posso lhes assegurar que foi uma experiência que não pretendo repetir. A cada ano, o SALIPI precisava apresentar novidades para não cair na mesmice.  Convidar nomes de expressão nacional, atrair mais editoras, promover  shows musicais, tudo isso implica custos financeiros elevados. Enquanto as despesas cresciam, as receitas permaneciam as mesmas. As contas não fechavam nunca. Com razão, você deve estar se perguntando: e por que não pararam antes? Por uma razão bem simples: os professores e os estudantes do Piauí, notadamente os de Teresina,  precisam do SALIPI, oxigênio para a inteligência de todos.

Cansado e desacorçoado, passei o bastão o prof. Luiz Romero e  fui "promovido" a colaborador voluntário. Como técnico que, um dia, foi jogador de futebol, passei a sofrer à margem do campo. Sofrer na companhia de um punhado de voluntários que sempre deram sangue para que o SALIPI continuasse respirando. Por oportuno, vale lembrar: em nenhum lugar do Brasil bienais, feiras ou salões de livros se realizam sem o efetivo apoio do estados e dos municípios onde acontecem.

Este ano, segundo fui informado pelos diretores da Fundação Quixote, o SALIPI já não tem como certas nem as parcerias com o Estado e com a Prefeitura. Na corda bamba, o evento, que já foi considerado "o mais importante da cultura piauiense", pode simplesmente não se realizar. Não faltará quem diga: o mundo não vai acabar se o SALIPI não acontecer, o que é verdade. Como é também verdade que, sem o Salão, o universo dos alunos e professores piauienses ficará um pouquinho mais pobre. Nada além.

Em 17/05/15, 19:57

Cacos de sonhos

Millôr, sempre certeiro, recomendava: passe os primeiros cem anos de vida juntando quinquilharias e depois abra um antiquário. Não tenho paciência para tanto. Passei apenas 50 anos juntando papéis que, por muito pouco, não me soterraram em minha própria casa. Gastei duas semanas para desvencilhar-me de uma batelada de revistas e jornais   velhos, repasto de ácaros, traças e cupins.  O diabo é que tudo aquilo estava profundamente ligado à minha errática trajetória. Além disso, desfazer-se de papéis e amores é sempre correr o risco de jogar fora o essencial e preservar o perfunctório... 

Meu filho, simples como um blues, ao ver aquela montanha de papel velho, não se conteve: "Tivesse depositado na poupança o dinheiro aplicada nessa papelada, estaria rico". Fiz cara de bravo e retruquei: Não, filho, teria apenas alguns caraminguás a mais;  seguramente, estaria  mais pobre. Não comprei isso para enfeite. Não é força de expressão: somos o que lemos. Além dos textos dos outros, encontrei coisas que escrevi há quase cinquenta anos. Encontrei, por exemplo, alguns exemplares do jornalzinho O Cartucho, editado por mim e por um punhado de colegas na antiga Faculdade de Direito do Piauí, em 1970. No jornal, um texto - De como evitar o verbo assistir na universidade -  que quase me rendeu a expulsão da velha FADI. Tive a petulância de criticar as aulas do diretor da instituição, Des. Robert Wall de Carvalho. Peguei uma descompostura em regra.

Numa pasta amarelecida, descobri um punhado de crônicas publicadas no Jornal O Estado, em meados da década de 1970. O nome da coluna:  Feijão com Arroz. Minha surpresa foi constatar que temas como cultura, educação, preservação ambiental, trânsito e violência já faziam parte das minhas preocupações. Decididamente, nunca estive na moda. Numa das crônicas, ao falar da péssima coleta do lixo na cidade, escrevi, com tosca ironia: há lixo espalhado por toda parte, o que, se por um lado é ruim, por outro, é muito bom: atesta que estamos consumindo e que nos sobra alguma coisa para jogar fora. O lixo é o luxo da civilização. À época, já me preocupava com o tratamento que dispensávamos aos rios que banham a cidade.

Entre os periódicos guardados, figurava uma batelada de exemplares de O Pasquim, um jornal que, com humor ferino, cutucava o diabo com vara curta. Encontrei também alguns exemplares de  Bundas, a revista do Ziraldo, cujo slogan era: "Quem mostra a bunda na Caras não mostra a cara na Bundas". Consegui salvar umas duas coleções do jornal Chapada do Corisco, que eu e um punhado de companheiros editávamos, em Teresina, na década de 70.

Quando o caminhão dos Trapeiros de Emaús partiu com  minha preciosa carga de inutilidades, experimentei uma sensação estranha, misto de alívio e pesar. Mais que papéis velhos, os trapeiros levaram também fiapos de esperança e cacos de sonhos que se perderam nos desvãos da vida...

Em 12/05/15, 23:14

Meio século de chapada

Por temperamento e preguiça, sou cristão pouco afeito a  efemérides . Como diria o Poeta, "Meu tempo é quando”. Ainda assim, há poucos dias, dona Áurea, sempre discreta e sutil, afirmou: "Faz 50 anos que Vossa Mercê faz reinações nesta Chapada". Por pouco, não me engasguei com o café que sorvia. Meio século é quase uma eternidade numa terra onde tudo é transitório. De pronto, as lembranças me transportaram à esplendente manhã do dia 2  de maio de 1965 quando me despejaram na Praça Saraiva. A mala de couro,  o saco com a rede,  uma carta de recomendação, que de nada me valeu, e  a ordem de dona Purcina ecoando no juízo: "Não me volte aqui antes de se virar doutô!". Como ninguém me esperava na cidade, pervaguei pela praça como um sonâmbulo, até que uma moça "prestativa" me levou a uma pensão ordinária na Rua Paissandu. Eu tinha 17 anos (incompletos), o curso ginasial,  vinte cruzeiros no bolso e  muito medo...

Em 66, eu já estava publicando crônicas ordinárias no jornal mural do Liceu. Uma delas, sobre um guarda de trânsito, fez tanto sucesso que cheguei a pensar que me tornaria escritor. Em 67, com a colaboração do Chico Viana, escrevi um conto – O Triste fim de Chico Facão – que me rendeu um prêmio de dez cruzeiros. Comecei a pensar alto. Em 68,   José Carlos  de Santana Cruz, Anchieta Cortez, Bené, Antônio Araújo , Alcione e eu fundamos o grupo musical MUPI 5 que,às vezes, nos rendia um lanche nas recepções  onde cantávamos. Em 69, fundei o Teatro Popular do Piauí, de vida efêmera e errática trajetória. Em 70, ingressei na Faculdade de Direito do Piauí e no magistério.

O magistério me salvou: além de me propiciar o mínimo necessário para sobreviver dignamente, deu-me a perseguida visibilidade, o carinho dos alunos e o respeito dos teresinenses. Convenhamos que, para um cidadão com o meu perfil, não é pouco. O mais veio por acréscimo.

Por oportuno, vale lembrar que, ao longo desse tempo, nunca me ausentei de Teresina por mais de uma semana. Confesso, sem receio de ser taxado de provinciano, que em Timon já me sinto um tantinho no estrangeiro. Sou um animal da Chapada do Corisco onde, como diria Bandeira, vivo, padeço e morro todos os dias. Quis o destino que coubesse a mim,  um catingueiro do sertão do Caracol, a tarefa  de escrever a letra do Hino de Teresina, no ano em que a cidade comemorava o seu 145º  aniversário. Por amor à verdade, confesso: em matéria de hinos, só conheço o do Flamengo, que mais choro do que canto...

Cinquenta anos em constante ebulição. Fiz tantas coisas que me cansaria só em enumerá-las aqui. A compulsão de fazer ( muito e  sempre) deve ter comprometido a qualidade do que fiz. Não sei, contudo, se poderia ter feito diferente, considerando as circunstâncias e os meios de que eu dispunha. De qualquer forma, como bom virginiano, prometo: nos próximos 50 anos, farei tudo com um pouco mais de cuidado. Assim seja!

Em 04/05/15, 10:53


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