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24/10/2011 - 08h20 / Caso Fernanda Lages

Marcelo Castro tentou manipular investigação, diz promotor

 


O promotor Eliardo Cabral, que acompanha o Caso Fernanda Lages juntamente com o promotor Ubiracy Rocha, revelou pela primeira vez, desde o início das investigações, os nomes que podem ter alguma relação com o caso. Entre eles, Eliardo afirma que o "figurão do PMDB" envolvido trata-se do deputado federal piauiense Marcelo Castro. Segundo o promotor, Castro teria, inclusive, tentado algumas manobras para manipular o rumo das investigações.

Promotor de Justiça Eliardo Cabral

Eliardo Cabral pediu, no início do mês, o afastamento do delegado Paulo Nogueira, devido à ligação de um "figurão do PMDB" com o caso. "Deixei muito claro isso quando sugeri que o Paulo Nogueira saísse do caso, por ser vinculado ao PMDB, ser político praticante e candidato em potencial à prefeitura de Corrente (município no Sul do Piauí)", diz.

Questionado sobre quem seria esse figurão, o promotor afirma que "como é de conhecimento de todo mundo, é o Marcelo Castro". Eliardo denuncia que o deputado tentou interferir nas investigações, "como se estivesse tentando proteger alguém". "Num desespero de tomar a dianteira, ele está se antecipando a algumas situações", acusa Cabral.

Segundo promotor, deputado Marcelo Castro teria tentado influenciar nas investigações

Outra tentativa no sentido de minar as investigações do MP relatada por Eliardo trata-se de um intermediário que disse a uma pessoa próxima ao promotor que "o Marcelo vai triturar ele. De acordo com este relato, esta pessoa insinuou que o deputado pagaria um preço ao promotor para depois utilizar-se disso para "triturá-lo". Mas Cabral alega não temer estas tentativas. "Você acha que se eu tivesse rabo preso, alguma coisa para me comprometer, eu iria entrar num negócio desse, nesse fogo cruzado? Quem me conhece já disse pra ele que é melhor nem tentar, porque já houve tentativas nesse sentido em casos anteriores e não deu certo", diz.

Segundo o promotor, não há evidências de que Marcelo Castro tenha alguma participação no crime, mas ele pode ser atingido caso alguém ligado a ele esteja envolvido. "Não vejo nada que possa ligar ele à prática do crime, mas se isso terminar atingindo alguém próximo a ele, um abraço; a carreira política já foi", diz Eliardo Cabral. A investigação não precisa nem terminar para gerar prejuízos ao peemedebista, na visão do promotor. Para ele, Marcelo Castro já tomou atitudes que podem prejudicá-lo politicamente, em declarações para a imprensa local após o nome de sua família ter sido relacionado ao caso.

A reportagem do Portal O DIA tentou entrar em contato com o deputado Marcelo Castro, mas até às 20h50 deste domingo (23) não conseguiu encontrá-lo em nenhum de seus telefones. Dário Castro, seu assessor de imprensa, declarou que "não tem o menor cabimento uma informação dessa; o deputado Marcelo Castro jamais iria interferir em uma investigação, independente de quem estivesse envolvido".

Robert Rios pode ser convocado para acareação com Bizet Castro

O deputado estadual Robert Rios Magalhães (PCdoB), ex-secretário de Segurança Pública do Piauí, pode ser convocado pelo Ministério Público para fazer uma acareação com a empresária Bizet Castro, mãe do engenheiro Jivago Castro. A Promotoria quer saber por que Robert Rios foi até a loja da empresária para garantir a Jivago que não havia nenhuma investigação que ligasse o nome do engenheiro à morte da estudante Fernanda Lages, ocorrida no dia 25 de agosto.

A ida de Robert Rios até a loja foi confirmada pela própria Bizet Castro, em depoimento aos promotores Eliardo Cabral e Ubiraci Rocha, na última sexta-feira (21). Segundo o Ministério Público, Bizet contou que ligou para Robert querendo informações sobre uma possível investigação sobre seu filho, já que boatos na imprensa diziam que Jivago estaria envolvido na morte de Fernanda. "Bizet disse que após a ligação, ele (Robert) foi até a loja conversar pessoalmente com Jivago", conta o promotor.

A ida de Robert até a empresa de Bizet intriga Eliardo, pois a conversa entre ele e Jivago poderia ser feita por telefone, sem a necessidade de o deputado tratar do assunto pessoalmente com o engenheiro. "Ah, conversou pessoalmente, porque telefone é sujeito ficar escuta", conclui o promotor.

Em entrevista à imprensa, Jivago Castro confirmou que procurou Robert Rios e pediu que o deputado estadual o levasse até o Secretário de Segurança para que este fornecesse uma declaração que constasse que o engenheiro não estava sendo investigado no Caso Fernanda Lages. Segundo o próprio Jivago declarou à imprensa, Robert tinha dito que nem ele nem ninguém estavam sendo apontado como suspeito, pois a Polícia ainda não tinha nenhuma linha de investigação.

Eliardo Cabral lembra também de uma contradição de Bizet. Quando ele questionou se a empresária havia presenciado a conversa de Jivago com Robert Rios, ela o corrigiu: "Quem falou com ele não foi meu filho, fui eu", disse a empresária ao promotor, durante o depoimento. Eliardo, então, lembrou que o próprio engenheiro, em entrevista à imprensa, revelou que ele mesmo conversou com Robert Rios, inclusive demonstrando intimidade. "Tem lá no vídeo (entrevistas a emissoras de TV do Piauí) demonstrando intimidade (Jivago usa a expressão ‘Robert, rapaz')", aponta o promotor.

Após Eliardo citar tal fato, Bizet esclareceu que ela falou com Robert Rios por telefone e disse que, após a ligação, o deputado estadual foi até a loja para falar com Jivago. A empresária também revelou, no depoimento, que ela é contraparente de Robert Rios, já que ele é primo legítimo de sua cunhada, Savina Magalhães, mulher do deputado federal Marcelo Castro (PMDB).

Versão de Robert Rios

O deputado estadual Robert Rios Magalhães (PCdoB) critica o promotor Eliardo Cabral (pastor evangélico), por ele ter citado seu nome à imprensa e acusa o promotor de estar querendo fiéis para sua igreja. "Eliardo está usando o Caso Fernanda Lages para aumentar o numero de fieis para sua igreja", diz o deputado.

Robert explica como foi sua conversa com Bizet Castro. "Ela me ligou porque tinha visto uma nota em coluna de jornal insinuando que o filho dela (Jivago) estaria envolvido no caso. Mas eu expliquei que aquilo era apenas boato. Depois eu estive na loja dela e expliquei ao seu filho que quando a polícia está investigando alguém, ela vai atrás", afirma o secretário.

O deputado estadual confirma que sua prima, Sávia Magalhães, é casada com Marcelo Castro, mas que têm muitos outros parentes e que não anda em casa de parentes. "Ele pode investigar o caso Fernanda Lages, mas não tem que andar citando meu nome. Eu sou um policial federal com 30 anos de carreira e não entendo o que Eliardo Cabral quer comigo", conclui.

Mamede e Cassandra

Enquanto decide sobre acareação entre Robert e Bizet, Eliardo Cabral confirma que já está certa uma outra. Será entre Cassandra Lages, tia de Fernanda Lages, e o delegado do 5º DP, Mamede Rodrigues. Eliardo quer esclarecer a versão de Cassandra, que afirma que o vigia Domingos havia dito a ela e a Mamede, ainda no momento em que o corpo de Fernanda foi encontrado, que teria visto um homem entrando junto com Fernanda. Mamede desmentiu a tia de Fernanda, alegando que não lembrava dessa conversa.

‘Depoimentos podem trazer Jivago Castro para a cena do crime'

Segundo o promotor Eliardo Cabral, os depoimentos da mãe de Jivago Castro, Bizet Castro, e de sua namorada, Valéria Macêdo, colhidos na última semana, revelaram dados importantes. "Esses dados podem trazer Jivago para a cena do crime", afirma o promotor. Ele acrescentou: "Quando fala assim ‘na cena do crime' significa envolvido (com alguma participação)". Para o promotor, as evidências apontam que o crime foi praticado por, pelo menos, dois homens, com a possibilidade de mais um.

Depois de ter o nome ventilado como suspeito, Jivago concedeu entrevista à imprensa no dia 31 de agosto e afirmou que sequer conhecia Fernanda e que, no momento do ocorrido, se encontrava dormindo em seu apartamento, com a mãe e a namorada. 

Valéria e Bizet foram inquiridas pelos promotores Eliardo Cabral e Ubiraci Rocha, que acompanham o caso, respectivamente, nas últimas quinta (20) e sexta (21), e devem ser convocadas novamente.

Cabral considera Bizet uma testemunha de grande peso para as investigações. De acordo com ele, durante o seu depoimento, que rendeu sete laudas, a empresária deu informações interessantes e entrou em contradição. Segundo o promotor, Bizet disse que Jivago só conversou com ela sobre o crime, que ocorreu na área do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), obra sob a responsabilidade dele, na segunda-feira seguinte, quatro dias depois.

Veja o diálogo (segundo o promotor Eliardo) ocorrido entre os promotores Eliardo Cabral e Ubiraci Rocha (Ministério Público) e Bizet Castro, durante o depoimento desta:

MP: - Que horas que a senhora tomou conhecimento desse caso? Porque a senhora viajou na madrugada do dia 26, e o caso aconteceu cedinho no clarear do dia 25. 

Bizet: - Não me lembro. 

MP: - Que horas seu filho saiu lá de sua casa? Ele dormiu lá, não foi? 

Bizet: - Umas oito horas. 

MP: - Que horas ele soube? Ele foi ao local? 

Bizet: - Não. Ele mandou um engenheiro e uma pessoa lá. E o engenheiro foi lá e se inteirou dos fatos.

MP: - E ele voltou e trouxe as informações para seu filho? 

Bizet: - Trouxe.

MP: - Ainda cedo? 

Bizet: - Ainda cedo.

MP: - Ele conversou com a senhora sobre isso?

Bizet: - Ele só conversou comigo segunda-feira. 

MP: - Como é que esse moço, engenheiro da obra do TRT, por onde a moça entrou, o vigia dele estava lá, que ele disse que estava... Ele saiu do apartamento 8 horas da manhã. Ele sai sem dar uma palavra com a mãe. ‘- Mamãe, olha o que aconteceu lá'. Depois, mais tarde, mesmo ele tomando conhecimento, não deu um telefonema para a senhora? Mandou um engenheiro examinar, recebeu todas as informações. Guardou com ele, fechou a boca, não falou para ninguém? A senhora acha que eu vou acreditar nisso?

O promotor afirma que Valéria também se atrapalhou. Ele confrontou a jovem com informações de que na noite do dia 24 de agosto ela estaria em uma festa de aniversário de um parente, sem o namorado, Jivago. O casal havia dito à imprensa que na noite do dia 24 de agosto, por volta das 19 horas, foi ao cinema e depois voltou para o apartamento dele, onde dormiram. Segundo eles, Bizet também estava em casa.

Veja como foi o depoimento de Valéria:

MP: - Você conhece uma senhorinha fulana de tal? 

Valéria: - Conheço. 

MP: - De onde?

Valéria: - Da faculdade. 

MP: - Você diria que é sua amiga?

Valéria: - Muito minha amiga. 

MP: - E amizade de que jeito?

Valéria: - Que andava na minha casa. Eu andava na casa dela. Dava carona no carro. Ia buscar em casa, levava para a faculdade, depois ia deixar. Muito minha amiga. 

MP: - Você confia nela?

Valéria: - Confio. 

MP: - Você diria que ela é uma mentirosa?

Valéria: - Não. Gente boa. Ela é do bem. 

Valéria - Pois ela disse que na noite do dia 24 para 25 [de agosto], você estava na festa de aniversário de um parente seu de sangue muito próximo. Ela é mentirosa?

Segundo Cabral, Valéria respondeu que a amiga se enganou e que as duas estão distantes (não têm mais ligações de amizade fortes).

Além desse ponto, Cabral perguntou a Valéria se, durante uma briga em casa com os irmãos, ela teria ouvido de seu irmão, enfurecido, a seguinte frase: "Você tem mais é que colaborar com essa causa, que é para aquele fulano pagar. Ele não deve? Tem que pagar!". De acordo com o promotor, ela negou. A frase teria sido ouvida por vizinhos.

Autor/Fonte: Portal O Dia

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